8 de agosto de 2011

Querida Jô

Há muito tempo não recebo suas cartas ridículas e isso tem me causado certa predisposição à depressão em tardes monótonas de segundas. Só desejo que esteja lúcida o suficiente para ler estas palavras que escrevo após tomar duas garrafas daquele vinho que você incredulamente mistura com refrigerante. Esse é seu maior defeito, sabia Jô? Misturar tudo o que vê para criar sabores que lhe surpreendem e apetecem instantaneamente. Eu te odeio por isso! E odeio a palavra “apetece”. Não sei por que, mas me lembra “peteca”, aquele esporte bobo e patético.
Onde estará você, minha querida? Tenho ouvido falar do seu sumiço interminável, da sua grotesca falta de apoio a boemia, trocada por notas de três facilmente e da escassez de sorrisos em sua adorável e submissa boca – essa que tantas já cantou madrugadas, bebeu versos, lambeu beijos e mordeu estrelas. Onde estará você?
Vejo que se esqueceu dos velhos amigos e costumes corriqueiros. Até ouço Bethania cantando Roberto “eu pensei que pudesse esquecer certos velhos costumes”. Essa sua facilidade para se ausentar de “certos velhos costumes” não me convence. Acredite, minha cara, eu aposto o resto da minha exagerada adega, cheia de bons e caros vinhos (tirando aquele barato que a Hilda trouxe da ultima vez), eu aposto, que antes da primavera, você estará de volta e cantaremos juntas aquelas canções tolas e incrivelmente fascinantes (usei esta hipérbole pra te provocar, já que odeia a palavra “fascinante”, por te lembrar Fafá de Belém – não que você não goste dela, afinal já cantamos muito “abandonada por você, apaixonada por você”, rir e rir, que saudade de você, minha querida!).
Pare de personificar suas magoas e se justificar em cima de um futuro. Meu Deus, e o presente? Faz o que? Diazepam no seu dia? Já assistiu as propagandas do Bradesco seguro? Vai que...
Quantas vezes você vai encher seus balões coloridos e solta-los nesse céu cinza, cheio de nuvens carregadas? Solte seus balões em céus azuis para que possam, enfim, serem notados. E não me venha com a conversinha mansa de que depois da chuva o céu se abre. Me poupe de suas explicações falhas que não convencem nem a Marina da novela, quanto mais a você mesma!

Ainda te amo.
Clarice