22 de março de 2021

Salvador


Falar que a pandemia nos ensinou algo não é bonito. Não é de bom tom. Não faz bem ouvir. Não muda em nada nossa vida. Não muda pra quem levou a doença pra dentro de casa e sobreviveu para ver a mãe morrer depois. Não muda para quem acreditava no tratamento precoce e pediu ao médico para que não o deixasse morrer antes de ser intubado. Não superamos. Não vamos. Ninguém vai. Quando meu pai morreu de câncer no pulmão, diziam “agora ele parou de sofrer, Jô” - eu posso garantir - a dor não diminuía dentro de mim. Por que eu sabia que para o resto da minha vida ele não faria mais parte dela. E hoje, depois de três anos, a dor é do mesmo tamanho.

Ainda nem chegamos ao final dessa pandemia, muito pelo contrário, o Brasil está na segunda e mais avassaladora curva de transmissão e mortes que há no mundo nesse momento. Uma montanha imensa, que se assemelha muito a um gigantesco e congelante Everest. Em todos os sentidos. Há um frio aterrorizante dentro da gente, que não se aquece mais com um vinho bom no final da noite. Costumo dizer que se alguém está bem mentalmente, tem algo muito errado com essa pessoa. Eu não sei vocês, mas digo isso, por que os meus 5% de sanidade que existe nesse momento uso intensamente para tentar acalmar os meus 95% de puro pânico.

Quando leio “a pandemia nos ensinou...” eu penso: como somos pequenos. Como somos vazios. Como é possível que depois de séculos de ensinamentos, de livros e mais livros sobre filosofia e antropologia, ainda cremos que só pela dor aprendemos. Só pela dor, superamos. Só pela dor, lutamos. Amigos, tirem isso da cabeça de vocês o quanto antes. Acreditem, nós não amadurecemos através de nenhum sofrimento. Não é caindo de bicicleta que a criança aprende andar, mas sim pelo amor de quem está ali ao lado dela, incentivando-a tentar mais uma vez depois do tombo. E é isso que nos salva sempre, desde que o mundo é mundo: o amor. É ele que nos levanta. É ele que assopra o machucado no joelho quando o remédio faz arder. Amarmos uns aos outros verdadeiramente é nosso mais incontestável “salvador” de tudo o que somos.

Josane H.