28 de março de 2022

Poemas aleatórios de 2012 a 2014


Ela é mineirinha
pois veja, seu doutor
ela é daquelas de fala mansinha
arrastada
que só de lembrar
me causa arrepio
gosta de doce de leite
de vinho doce
cobre minha alma toda
com sua intensa doçura
e uma pitada estranha
de loucura
na cama
me morde inteira
arranha
tortura
quebra copo na parede
e não se cansa
pois veja, seu doutor
como não se apaixonar
não se entregar
a essa mulher?
mineira
leonina
de quarenta
e para que evitar?
se ela distribui risadas de bobeira
se ela desvia dos olhares atentos no bar
se pega na minha mão
quando me olha
profundamente?
e fazia tanto tempo
que eu não era olhada assim
por dentro
sabe, doutor?
há respostas em nosso silêncio
há sorrisos em nossos olhares
e isso nem deve ser amor
é uma “coisa" boa
que me aparece assim
tão de repente
e para que evitar?
se ela não se importa com o batom
e marca minha boca com seu vermelho?
vermelho intenso
e se diverte
me faz rir até doer a barriga
dança na rua antes de entrar no carro
dança no quarto
e tem aqueles pontinhos
as costas mais perfeitas
uma sutileza quando se aconchega
nos meus braços
no meu colo
pra terminar
seu doutor
de manhã
colada em mim
como se fizesse parte do meu corpo
a minha vida inteira
me acorda com cafuné bom
daqueles que faz a gente perder a hora
perder a cabeça
perder a razão
perder o juízo
mas quem nunca não?
pois é, seu doutor!
ela é mineirinha
sim
e ainda por cima
tem perfume no cabelo
perfume no corpo inteiro
no quarto
no travesseiro
pinta as unhas de azul
pinta o céu de lilás
de manhã
me abraça nua
e me dá um gole de café 
na boca

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Entrelaçadas naquela rua
eu e ela
sem medo
sem pudor
entrelaçadas
como se fossem luzes
em volta de árvores de natal
iluminando a noite
vazia
imprópria
indecente
essa sou eu
hoje
me transformei em uma arma
daquelas que perfuram o coração
sem deixar marcas
e vendo o sangue escorrer
não faz nada
me tornando lembranças
de pessoas que não pretendo amar
vivendo paixões
que não me levarão a lugar algum
te dou a boca da primeira mulher que irá beijar
te faço sentir pela primeira vez
um gosto que nunca mais vai esquecer
mas eu não posso ficar
não mais essa noite
nem amanhã
nem depois
não peça para que eu fique
fuja
vá para bem longe
antes que não consiga ir
não se apaixone por mim
tudo o que eu sempre desprezei
é exatamente o que me tornei.

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me abre a porta nua
completamente
mas ela pode – pensei
onde já se viu
um corpo assim?
isso deveria ser pecado
não?
velas por todos os cantos
som gostoso de ouvir
cheiro bom 
eu perguntei
“isso tudo é pra mim?”
pulamos a sala
pulamos a parte do vinho
pulamos o “como foi seu dia”
e ela pulou sobre meu corpo
nem me lembro
o que eu pensava
e se pensava
era algo agressivo
eu era um bicho ali
e ainda assim
uma poeta
indecente
que se lembra agora
de cada movimento
escrevo para não esquecer
e enquanto escrevo
lembro daquela boca
no meu corpo
entre minhas pernas
lembro da voz dela
pedindo
“me ensina fazer igual você faz”
estou perdida!
estou perdida!
eu pensava
quase de manhã
seus seios
encostavam em meus pés
seu corpo se rastejava
em cima do meu
rolava
por todos os cantos
da cama
por todos os lados
ângulos
insaciável
então
depois de pronunciar  
as palavras mais atrevidas
que já ouvi
ela parou
respirou fundo
foi se achegando de um jeito
sem tirar os olhos dos meus
abraçou meu quadril
com suas coxas
ficou toda em cima de mim
debruçou-se sobre meu peito
beijou minha testa
pulamos o cigarro
pulamos o copo d´água
pulamos o banho
dormimos
com duas pedras
grudadas
uma em cima da outra

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Sinto saudade.

Saudade
tipo
saudade dos seus cílios
na minha bochecha.
dos três cheirinhos
saudade de te abraçar
quando você vestia aquela blusa marrom
de pelo de urso de pelúcia. 

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Talvez você não se lembre
mas eu costumava colocar
a mão na sua coxa
quando você dirigia
adorava sentir o movimento
que seu músculo fazia
quando trocava de marcha
e acelerava outra vez
acho que é por isso que 
não goste tanto de carros automáticos 
(risos)

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