22 de fevereiro de 2018

Oito ou oitenta?



Oito ou oitenta? Nunca meio termo. Com meu pai, a vida foi sempre assim. Em tudo. Por que amar só um filho se eu tenho amor de sobra pra amar quantos eu puder ter? Por que guardar dinheiro se eu posso ajudar meus amigos? Meu pai nunca foi de economizar em nada. Principalmente quando o assunto é amor. Isso ele tem de monte. Seja para doar aos seus filhos, as mães dos filhos, para os amigos e para quem precisar. Ninguém que um dia precisou do meu pai, ficou sem ajuda. Talvez por isso, nesse último ano, enquanto luta contra um câncer, nunca lhe faltou nada. Não lembro de ter passado um domingo com ele que não entrasse naquele quarto pelo menos umas dez pessoas.

Contador de causo, tocador de moda, bom amigo e pai dedicado. Meu pai descobriu cedo que só recebe amor quem doa amor. Por isso nunca ficou sozinho e nunca teve sequer uma discussão pra ver quem ia ficar com ele no hospital ou em casa. Sempre sobra gente. Acho que aprendi com a doença do meu pai que o verdadeiro sucesso é aquele que o dinheiro não pode comprar.

E se o assunto é trabalho, meu pai é oitenta. Uma vez mandei mensagem para dar parabéns pelo dia do agricultor e ele respondeu: “na minha vida fui trabalhador rural para o seu avô, fui 17 dias cobrador, dono de discoteca ambulante, comerciante de tijolos, telhas e lages. Fui vendedor de sementes na Meloniki e também agricultor. Também fui dono da Hodservi, da PH Sementes e da Boi Brasil Serviços, além de agenciador de negócios agropecuários e... pai”.  Na verdade, ser pai é o que ele faz de melhor. O PH é PHD no quesito pai. Sorte a minha e dos meus irmãos sermos filhos do homem que veio ao mundo pra ser pai. 

Oito ou oitenta? Nunca meio termo. Inclusive quando o assunto é tocar moda e tomar uma. A casa do meu pai, onde eu morei por 14 anos, era tipo curva de rio. Mas curva do rio São Francisco. Ali, naquela mesa de fora era cantoria todos os dias. Tinha cerveja gelada para quem chegava e conversa boa pra jogar fora ou guardar pra toda vida. Eu guardo várias.

E sabe o que mais ele e oitenta? Pra sentir dor. Faz mais de um ano que ele não sabe o que é passar um dia sem sentir dor. Certa noite, pedi para o médico no corredor do hospital para que aumentasse a dose de morfina. Ele respondeu: nunca tive um paciente que tomasse tanta morfina e não morresse. “Você tem certeza?”, ele perguntou e eu disse “sim”, ouvindo meu pai gritando de dor no quarto.

Hoje reli um texto que escrevi para uma amiga que perdeu o pai num acidente de carro. E tinha uma frase que dizia “Não se ensina um coração a amar, muito menos a se despedir de alguém”. É bem isso.

Oito é o número de filhos que meu pai tem. Oitenta é o número de cigarros que meu pai fumava todos os dias. Hoje ele não fuma mais, mas não porque venceu o vício, mas por não ter sequer forças para segurar um cigarro. Ele mal se lembra de como chama o remédio que ele toma pra dor. E olha que no hospital o apelido dele é Paulo Morfina.

Oito ou oitenta? Se o seu pai estiver vivo hoje, o meu conselho é: seja oitenta. Abrace ele bem forte. Fique assim até que seu braço adormeça. Até que seu coração sinta o dele. Até que seus olhos transbordem amor. Diga eu te amo. Seja grato. Eu sou.


Josane H.
22/02/2018