Quando eu tinha uns nove anos de idade, meu pai apareceu em casa com uma pipa gigante de pano e madeira, no formato de uma águia. Tentei durante dias fazer ela voar. Ele chegava em casa e perguntava “ela voou, Jô?”. Eu respondia sempre “quase, pai”. E ele dizia “um dia ela voa”.
Era só começar a ventar que eu saía na rua com ela na mão e
fica correndo pra lá e pra cá, mas nada. Era em vão. Até que um dia, num
domingo bem cedo, ele acordou, foi lá no meu quarto e falou “levanta, vamos
fazer essa pipa voar hoje”.
Entrei toda feliz na camionete com a pipa e lá fomos nós
para uma estradinha sem muito movimento. Pra minha surpresa, meu pai me colocou
em cima da carroceria, me entregou o carretel e foi levando a pipa até o meio
da estrada. Era uma camionete F-1000, que tinha aquela janelinha no vidro
traseiro e grades. Então ele voltou, entrou no carro, abriu a janelinha e falou
“segura firme aqui nessa gradinha e quando o pai acelerar, você vai soltando a
linha”.
Ele ligou a camionete e ficou me olhando pelo retrovisor.
Fiz o que ele pediu. E quando a pipa começou a subir, meu corpo começou a subir
também. Soltei toda a linha, mas segurei com força a grade e o carretel. Foi
uma das maiores emoções da minha vida ver ela tão lá no alto.
Sabe aquelas cenas
que você não esquece da sua infância? Essa é uma das que não esqueço. A pipa
estava finalmente voando. Não só ela. Lembro certinho que meu pai me perguntava
“ela tá voando, Jô?” e eu respondia “eu tô voando sim pai.. eu tô voando sim”.
Ele me olhava pelo retrovisor e ria.
Pois é. Com meu pai eu aprendi muitas coisas. Com essa
história, aprendi que uma hora ou outra, mesmo que demore, aquilo que você
tanto deseja, acontece. As vezes pode não ser como você esperava. Voar junto
com a pipa não estava nos meus planos, mas foi muito melhor do que eu imaginei.
Foi... mágico.
Josane H.
13/02/2017
