24 de agosto de 2018

Sonho interminável




Às vezes me pego pensando: qual o meu sonho verdadeiro? Parece simples responder essa pergunta. Talvez até seja. Então me vem à cabeça uma manhã. Quase sinto o cheiro desse sonho. Maresia, café, livros antigos.   

Eu, morando numa casa próxima ao mar.

Uma varanda de madeira, na qual meus pés bem cedinho caminham até tocarem a areia. O som é uma valsinha brasileira. Adoro ouvir todos os dias.

Caminho descalça na beira do mar com meus cachorros.

O dia onde moro é bonito, mesmo quando amanhece nublado e o mar de ressaca me lembra de agradecer pelo vinho bom, tomado na noite anterior com meu amor, antes de chover. Antes da gente se molhar.

Ela ainda dorme no quarto enquanto o café é passado e eu repasso a leitura daquele velho poema interminável. E para quê pressa, afinal?


Josane H. 
Agosto 2018










22 de agosto de 2018

A vira-lata feliz



Um mês antes do meu pai morrer, eu adotei a Sofia. No momento em que os olhinhos dela, por trás de um cercadinho de feirinha de adoção da Leroy Merlin, me olharam, eu sabia que a levaria para casa. 

Na mesma semana em que a adotamos, o médico me orientou a ser mais clara com o meu pai e lhe dizer a verdade: que não havia cura para o câncer que ele tinha. Um pedaço de mim morreu no dia em que fiz isso. Naquela noite, quando cheguei em casa, a Sofia estava me esperando e ela pulava tanto de felicidade ao me ver que até me esqueci de chorar, como eu fazia todos os dias nos últimos meses.

Talvez, eu nem tenha percebido o quanto Deus é extraordinário e muito menos entendido seus planos nas semanas seguintes.

Quando meu pai piorou, a Sofia foi diagnosticada com parvovirose. Os dois foram internados quase no mesmo dia. Era raro chegar no hospital e encontrar meu pai sem dor. Quando acontecia dele estar bem, ele me pedia para mostrar fotos dela e brincava com os enfermeiros dizendo que ele tinha uma netinha muito peluda e me acalmava dizendo que ela ficaria bem. Até o meu pai, de certa forma, a Sofia ajudou. Às vezes eu o levava de cadeira de rodas até uma área externa do hospital e lá ficávamos conversando, rindo, relembrando histórias boas – enquanto a dor dele não voltava. Lembro claramente do sorriso dele no dia em que contei que ela havia se curado e voltado para casa. Eu queria que o mesmo acontecesse com ele.

Dizem que os animais sentem quando nossos corações se partem. Eu pude comprovar isso quando cheguei em casa no dia em que meu pai morreu. Era uma dor insuportável. E a Sofia ficou ao meu lado o tempo todo, quietinha, sem pular ou latir. Quando sentei na sacada e chorei ela ficou ao meu lado, durante todo meu banho e enquanto eu me trocava ela me olhava profundamente. Era como se ela quisesse tirar de mim toda aquela dor. E de certa forma, ela conseguiu.    

Algumas semanas depois, percebi que o meu apartamento ficou pequeno para o tamanho da felicidade da Sofia. Era hora de mudar. E tudo mudou. Até o meu relacionamento com minha namorada mudou. Nos tornamos uma família com a presença dela em nossas vidas.

Até hoje, tudo muda onde Sofia chega. O apelido dela no pet onde ela toma banho é “Vira-lata feliz”. Não tem uma pessoa que não sorri quando ela rebola para ganhar carinho na rua ou no parque. Quando a levo na casa da minha mãe, é como se uma criança chegasse lá. A decoração muda, objetos pequenos são guardados, o humor de todos muda, a alegria se multiplica em segundos.

A Sofia ganhou não só duas mães, como duas avós, um avô e vários tios. Adotar a Sofia foi um dos melhores presentes que recebi na vida. Às vezes quando pego ela me olhando, sou capaz de sentir sua gratidão. Ela me ensinou mais sobre o amor em sete meses do que eu aprendi em toda minha vida.

Josane H.
Agosto 2018