Carlos
Fernando abre a porta do apartamento. Um cara cabeludo, com os olhos vermelhos,
fantasiado, com um vestido branco, asas e um arco e flecha de R$ 1,99.
-
Oi, pois não?
- E
aí mano, beleza? Sou o Cupido, tá ligado?
-
Carnaval vai ser semana que vem, amigo!
- Pois
é meu! Mas tô querendo adiantar meu trampo, sabe como é, né? Eu trabalho com
banco de horas. Comprei um abada! Bahia, mulherada. Tá ligado?
Carlos
Fernando olha sem entender bem o que tá acontecendo. Passa a mão no queixo.
Enquanto isso, o cupido vai entrando.
- E
você tá fazendo o que aqui?
-
Pois é. No sábado de carnaval você vai conhecer uma moça, tá ligado? O nome
dela, pera, deixa eu ver – ele abre a bolsinha que fica do lado e tira uma
lista – NATÁLIA, o nome dela é Natália. Tem um aí pra gente?
-
Um? O que seria?
-
Pronto, achei – abrindo um potinho, pegando o back na mão. Tem isqueiro?
-
Então, vamos lá. Você é o cupido que vai me dar uma flechada antecipada para me
despertar uma paixão por uma tal de Natália que vou conhecer no sábado de
carnaval – e entrega o isqueiro para o cupido.
- Ah
mano, paixão não, né? Tá ligado, meu negócio é amor verdadeiro – enquanto fuma
o back. O Cupido da paixão trabalha só de terças e sextas, mas é por aí a
idéia.
- Na
boa, se você é o cupido. Você acha mesmo que quero descobrir meu amor verdadeiro
numa noite de carnaval?
-
Mano, a gente não pode, sabe como é, controlar isso, tá ligado? O amor cola na
hora que a gente menos espera – e bate com a mão no peito do Carlos Fernando e
entrega o back pra ele.
- Se
você é o cupido, eu posso determinar que não quero, certo?
-
Meu, daí dá uma complicada aí no meu esquema, tá ligado? Eu viajo agora no
inicio da semana que vem. Bicho, colabora!
-
Cara, da ultima vez que eu amei, eu só me ferrei! Nem vem.
-
Então mano, cada um com seus problemas, tá ligado? Eu não posso sair daqui hoje
sem flechar você. A Natália já flechei hoje de manhã. A mina é gata, hein?
-
Não. Tô de boa. Quero só curtir. Nada de amor. Vamos fazer assim, o cara que
divide apê comigo deve tá chegando aí. É só flechar ele.
O
Cupido pensou, pensou. Não muito, por que o back era dos bons.
-
Fechado.
Depois
de uns vinte minutos, chega Marco Aurélio. O amigo, gordinho, desajeitado, que
divide apartamento com Carlos. Ele entra na sala e dá de cara com o Cupido e
Carlos Fernando rachando o bico de um desenho animado na TV.
- Oi
gente – com cara de assustado, não entendendo nada – tudo bem aqui?
-
Hahahahahaha... Marco, esse é o...
Cupido
nem espera Carlos Fernando terminar de falar e dá uma flechada no amigo dele. Um brilho
invade a sala. Marco olha os dois olhando pra ele.
-
Mano, adoro essa luz, tá ligado?
Cupido
vai embora. Carlos Fernando rindo sem parar. Marco, o patinho feio, sem
entender nada.
E no sábado
de Carnaval...
Carlos
Fernando, o bonitão. Marco Aurelio, o patinho feio. Eis
que chega uma mulher linda no salão. Pensa numa mulher, mas a mais bonita, duplique. depois de um tempo, ela se aproxima dos dois.
- Oi, sou Natália.
Enquanto
isso, na Bahia, o cupido pula sem parar. Seu celular toca.
-
Alô.
-
Cupido, é o Carlos Fernando!
-
Fala cara, tá beleza mano?
-
Beleza o caralho, Cupido, sacanagem meu...
Enquanto
isso, lá no fundo, Marco Aurelio, o patinho feio, bem feliz com a Natália nos
braços dançando “menina você é um docinho de coco, tá me deixando louco, tá me
deixando louco”... Texto Josane H. Fev 2013