Aperte play antes de começar a ler. Fica uma delícia. Pois vejam só como são as coisas, a mulher do Zé Goiaba, bem a Dona Amélia, quem diria! Virou assunto de boteco a pobre coitada. No bar do Tonico não se fala em outra coisa, esqueceram até do futebol. Tem gente comprando remédio que não devia só pra ouvir o que acontece na casa do Zé Goiaba, que fica ao lado da farmácia.
Agora, cá pra nós, que aquela mulher é uma semideusa, digna de um crime passional, não dá nem pra discutir! Até o circo, quando passou na rua, parou pra assistir ela estender as roupas no varal. E quando eu digo o circo, foi o circo inteiro, desde o palhaço até o gorila.
Difícil mesmo esta sendo pro Zé. O pobre do Zé Goiaba tem voltando cabisbaixo da pedreira todas as tardes. Não faz nem a boa e velha pausa na padaria pra comer o pão com mortadela e tomar sua coca-cola. Vai direto pra casa, sem olhar para os lados.
Seu Rodrigues tinha razão ao dizer que não existe família sem adultera. Mas a Dona Amélia? Onde é que vamos parar?!
Não há nada mais triste que ver um homem como o Goiaba, tão vigoroso, tão cheio de vida, que batia ponto no puteiro da Tia Dirce, ser um tremendo corno assim! É pra acabar com qualquer sujeito. Mas o que há de se fazer, não é?
Pois na verdade, companheiros, o Goiaba bem que tem culpa no cartório. Foi se engraçar bem com a Rosa do armazem. Ainda mais com a Rosinha. Essa aí não dá ponto sem nó e não dá mesmo! Não dá para os moços, se é que me entendem! Se soubesse, o Zé Goiaba. Não deu tempo de avisar.
A vida como ela é
O caso – pois vejam só como são as coisas – é que já faz mais de mês que Rosinha e Dona Amélia estão numa amizade que chega causar inveja até no casal de passarinhos que fizeram ninho no pé de jasmim manga em frente a casa do Goiaba. Viraram também, como todos, meros espectadores da vida como ela é! (salve Nelson Rodrigues que via a vida como um menino olhando pela fechadura!).
E quando a Rosa chega na casa da Dona Amélia, tudo vira um paradeiro só na Vilinha do Sumaré. A farmácia, a padaria, a barraquinha de churros, o boteco do Tonico e até o açougue, tudo para! É como se alguém apertasse a tecla “pause” de um controle. Voltamos todos nós, velhos fanfarrões a ter dezessete anos, ouriçados, esperando pelo “vale a pena ver de novo” como se fosse o ultimo capitulo.
O coitado do Goiaba bem que tentou colocar sua cobra pra brincar, mas as aranhas botaram a cobra pra “fuma”! Lá fora, por que fumante hoje em dia, fica na sarjeta! Não que elas não acendam um cigarrinho, mas sabe como é, depois, bem depois!
Pobre Zé Goiaba! E o que há de se fazer, não é? Qual homem nunca pensou em ver sua mulher com outra mulher? É tara desde menino. Culpa dos filmes americanos que mostram aquelas peitudas se enroscando.
Amélias também gostam de rosas
Mas o que o Zé Goiaba viu numa tarde dessas, bem depois da “malhação”,
na sua cama que pagou em 24 vezes, meus amigos, nem sua imaginação um dia foi tão longe!
É uma pena. Foi muito tarde pra descobrir a mulher espetacular que tinha, por que toda Amélia “é mulher de verdade!”, mas não há uma só nesse mundo que resista a uma Rosa – que fique claro – bem vermelha! Esquecem até dos espinhos. Afinal, quem nunca beijou uma Rosa sem se importar com espinho?
"Pessoas com vidas interessantes não têm fricote. Elas trocam de cidade. Sentem-se em casa em qualquer lugar. Investem em projetos sem garantia. Interessam-se por gente que é o oposto delas. Pedem demissão sem ter outro emprego em vista. Aceitam um convite para fazer o que nunca fizeram. Estão dispostas a mudar de cor preferida, de prato predileto. Começam do zero inúmeras vezes. Não se assustam com a passagem do tempo. Sobem no palco, tosam o cabelo, fazem loucuras por amor e compram passagens só de ida..."
Há muito tempo não recebo suas cartas ridículas e isso tem me causado certa predisposição à depressão em tardes monótonas de segundas. Só desejo que esteja lúcida o suficiente para ler estas palavras que escrevo após tomar duas garrafas daquele vinho que você incredulamente mistura com refrigerante. Esse é seu maior defeito, sabia Jô? Misturar tudo o que vê para criar sabores que lhe surpreendem e apetecem instantaneamente. Eu te odeio por isso! E odeio a palavra “apetece”. Não sei por que, mas me lembra “peteca”, aquele esporte bobo e patético.
Onde estará você, minha querida? Tenho ouvido falar do seu sumiço interminável, da sua grotesca falta de apoio a boemia, trocada por notas de três facilmente e da escassez de sorrisos em sua adorável e submissa boca – essa que tantas já cantou madrugadas, bebeu versos, lambeu beijos e mordeu estrelas. Onde estará você?
Vejo que se esqueceu dos velhos amigos e costumes corriqueiros. Até ouço Bethania cantando Roberto “eu pensei que pudesse esquecer certos velhos costumes”. Essa sua facilidade para se ausentar de “certos velhos costumes” não me convence. Acredite, minha cara, eu aposto o resto da minha exagerada adega, cheia de bons e caros vinhos (tirando aquele barato que a Hilda trouxe da ultima vez), eu aposto, que antes da primavera, você estará de volta e cantaremos juntas aquelas canções tolas e incrivelmente fascinantes (usei esta hipérbole pra te provocar, já que odeia a palavra “fascinante”, por te lembrar Fafá de Belém – não que você não goste dela, afinal já cantamos muito “abandonada por você, apaixonada por você”, rir e rir, que saudade de você, minha querida!).
Pare de personificar suas magoas e se justificar em cima de um futuro. Meu Deus, e o presente? Faz o que? Diazepam no seu dia? Já assistiu as propagandas do Bradesco seguro? Vai que...
Quantas vezes você vai encher seus balões coloridos e solta-los nesse céu cinza, cheio de nuvens carregadas? Solte seus balões em céus azuis para que possam, enfim, serem notados. E não me venha com a conversinha mansa de que depois da chuva o céu se abre. Me poupe de suas explicações falhas que não convencem nem a Marina da novela, quanto mais a você mesma!