31 de julho de 2019

Tudo tem seu preço





Meu pai as vezes dizia “escreve mais sobre sentimentos e menos sobre política”. Eu respondia que sentimentos não pagavam contas. Pelo menos as minhas contas eu nunca paguei escrevendo sobre o que eu sinto. Certa noite eu estava num barzinho numa rua na Bahia, quando uma moça se aproximou da mesa e entregou umas folhas com poemas. E disse “eu que escrevo, você pode comprar algum? Preciso pagar o hostel hoje se não vou dormir na rua. Pague quanto quiser”. Eu comprei. Minha namorada falou depois “pagou R$ 20 reais disso aqui?”. Eram poemas bem ruins na verdade. Mas eu me coloquei no lugar dela. Sempre escrevi de graça quando o assunto era o que eu pensava sobre a vida ou as coisinhas do dia a dia que a gente vai empurrando, como se estivesse no supermercado com um carrinho. Talvez essa seja a minha grande irresponsabilidade na vida: não precificar minhas palavras quando elas refletem o que EU sinto. Como conseguir contar uma história tão bonita de algo incrivelmente simples. Como o barulho ensurdecedor que faz quando uma folha cai de uma árvore e um carro, que vinha de uma cidade distante trazendo na mala blusas dobradas com saudade, passa por cima. Não, não é tão fácil sentir o mundo dentro da gente desse jeito, parece barato, mas é caro. Às vezes tudo o que você quer é apenas enxergar a folha caindo e um carro passando. 

Josane H. 


30 de julho de 2019

O último gole




Saber a hora de levantar-se da mesa, depois que o amor não está sendo mais servido, é algo que se aprende com o tempo. Eu sempre tive dificuldades para saber o momento exato de me retirar. Ficava na mesa, procurando mais um pedacinho, um motivo para eu permanecer ali. Quantos cafés requentados a gente toma por falta de coragem de levantar da mesa e encontrar um outro lugar que sirva um bem quentinho. Às vezes, eu ia até a cozinha, colocava água pra ferver e fazia outro. Mas é só com o tempo mesmo que você entende que em algumas mesas, onde não se servem mais o amor, até o café esfria rápido. Então, um dia você recolhe os pratos, talheres e até fica grata pelo restinho de vinho na garrafa. Você enche sua taça com o que sobrou, agradece pela refeição, toma seu último gole e, finalmente, se levanta.

Josane H.
30/07/2019