Meu pai as
vezes dizia “escreve mais sobre sentimentos e menos sobre política”. Eu respondia
que sentimentos não pagavam contas. Pelo menos as minhas contas eu nunca paguei
escrevendo sobre o que eu sinto. Certa noite eu estava num barzinho numa rua na
Bahia, quando uma moça se aproximou da mesa e entregou umas folhas com poemas.
E disse “eu que escrevo, você pode comprar algum? Preciso pagar o hostel hoje
se não vou dormir na rua. Pague quanto quiser”. Eu comprei. Minha namorada
falou depois “pagou R$ 20 reais disso aqui?”. Eram poemas bem ruins na verdade.
Mas eu me coloquei no lugar dela. Sempre escrevi de graça quando o assunto era
o que eu pensava sobre a vida ou as coisinhas do dia a dia que a gente vai
empurrando, como se estivesse no supermercado com um carrinho. Talvez essa seja
a minha grande irresponsabilidade na vida: não precificar minhas palavras
quando elas refletem o que EU sinto. Como conseguir contar uma história tão
bonita de algo incrivelmente simples. Como o barulho ensurdecedor que faz
quando uma folha cai de uma árvore e um carro, que vinha de uma cidade distante
trazendo na mala blusas dobradas com saudade, passa por cima. Não, não é tão
fácil sentir o mundo dentro da gente desse jeito, parece barato, mas é caro. Às vezes tudo o que você quer
é apenas enxergar a folha caindo e um carro passando.
Josane H.