Vem. É assim
que deveria ser sempre, em tudo na vida. Esse “vem” desprovido. Gosto dessa
leveza intensa que provocamos uma na outra. Amo essa bagunça que causamos. Esse
vou, não vou, mas não perco nenhum minuto. Vem. Fico louca nesse sem cansar
imensurável, sem pausas ou respiros, descalças pela casa, descobertas e absurdamente
quentes. Com nossas taças cheias, corações completos e as risadas nos momentos mais
improváveis. É assim. Vem. Só isso.
- E desde
quando essa palavra existe no seu vocabulário? Essa Josane de 2022 é o que você
precisa ser, continuar a ser. Você levou tanto tempo pra se tornar ela.
- Eu também
gosto dela, mas só por algumas semanas, preciso ser a outra.
Minha sacada
virou meu lugar favorito nas noites de domingo. Abril é o mês que mais gosto.
Não é quente, nem frio e o céu é lindo a qualquer hora do dia, principalmente
antes do sol se pôr. Texto brega esse. Não ligo. O que importa é que acertei na
compra do notebook que acende o teclado no escuro. A parte boa de escrever é
que você tem que organizar os pensamentos pra fazer isso acontecer. E hoje eles
estão tão inquietos. O barulho que eles fazem na minha cabeça é mais alto que o
show do Kiss que acontece aqui perto.
Acendi um
cigarro (sim, vou parar, não agora), coloquei mais vinho na taça.
Tô aqui
lembrando o que aquela moça que paquero me disse quinta-feira “você é intensa”.
Vou mandar uma mensagem pra ela perguntando como passou o dia. É aniversário
dela.
Ela
perguntou o que estou ouvindo.
O que será
que a vizinha da frente pensa enquanto fuma seu cigarro e me olha
Compartilhei
com a moça a música que estou ouvindo: The Pretenders Don't get me wrong.
Bom, mas ok.
“Você é intensa”. O que escrever sobre isso? Não faço terapia tem uns 8 anos. Se
Hilda e Clarice me visitassem novamente, diriam que intensidade é minha maior
qualidade (“substitua por virtude” essa palavra aí, diria Hilda – Clarice me
defenderia dizendo “deixa a menina escrever do jeito que ela quiser essa merda
Hilda”). Xingaria as duas com uns bons palavrões. Melhor que não viessem hoje.
Só tenho uma garrafa de vinho, agora na metade já.
Mas
voltando. Acho que intensidade é meu combustível. Até penso que gostaria de ser
meio termo. Ser a pontinha de pé que encosta lentamente na água pra sentir a
temperatura antes de entrar. Mas não sou assim. Quando vejo, já pulei com roupa
e tudo. Mergulho sem saber se está fria ou não, se a correnteza está forte ou
leve, se tem tubarão ou peixinhos coloridos, se é fundo ou raso. Não se
enganem. Nunca é fácil ser intenso. É perigoso. Nesses 42 anos de saltos ornamentais
desajuizados, já me peguei muitas vezes mergulhando em mares revoltos, em lagoas
escuras, sem saber como sair. Acreditem, ninguém te salva nenhuma vez, só você
mesmo consegue. Mas ó... por conta da minha intensidade, também já mergulhei fundo
em águas claras quentinhas, vi de perto cidades de corais incríveis que só quem
mergulha sem medo consegue enxergar, entrei em cachoeiras que lavaram minha
alma por dentro, flutuei gostoso em águas tão límpidas quanto o céu estrelado
de abril. Do mais bonito ao mais aterrorizante mergulho, acho que pessoas meio
termo correm o risco de ficar de colete dentro da lancha. É mais seguro, mas me
parece um tanto chato.
Domingo. 01
de maio. 23h17.
A vizinha
foi dormir.
A moça
respondeu “você é uma das minhas pessoas preferidas, as que vivem cada momento
com intensidade”.
Clarice e
Hilda riram. Sim, elas vieram. Tomara que não demorem muito pra ir que tô com
sono. Clarice gritou da cozinha “a gente veio pra ficar, Jô”. Era só o que
me faltava, essas duas de volta. Senhor, me ajuda. “Trouxemos
mais vinho”, disse Hilda soltando aquela risada de senhora fumante que a gente
nunca sabe se ela tá rindo, engasgada ou sofrendo um infarto.