Domingo, 01 de maio, 21h32.
Minha sacada virou meu lugar favorito nas noites de domingo. Abril é o mês que mais gosto. Não é quente, nem frio e o céu é lindo a qualquer hora do dia, principalmente antes do sol se pôr. Texto brega esse. Não ligo. O que importa é que acertei na compra do notebook que acende o teclado no escuro. A parte boa de escrever é que você tem que organizar os pensamentos pra fazer isso acontecer. E hoje eles estão tão inquietos. O barulho que eles fazem na minha cabeça é mais alto que o show do Kiss que acontece aqui perto.
Acendi um cigarro (sim, vou parar, não agora), coloquei mais vinho na taça.
Tô aqui lembrando o que aquela moça que paquero me disse quinta-feira “você é intensa”. Vou mandar uma mensagem pra ela perguntando como passou o dia. É aniversário dela.
Ela perguntou o que estou ouvindo.
O que será que a vizinha da frente pensa enquanto fuma seu cigarro e me olha
Compartilhei com a moça a música que estou ouvindo: The Pretenders Don't get me wrong.
Bom, mas ok. “Você é intensa”. O que escrever sobre isso? Não faço terapia tem uns 8 anos. Se Hilda e Clarice me visitassem novamente, diriam que intensidade é minha maior qualidade (“substitua por virtude” essa palavra aí, diria Hilda – Clarice me defenderia dizendo “deixa a menina escrever do jeito que ela quiser essa merda Hilda”). Xingaria as duas com uns bons palavrões. Melhor que não viessem hoje. Só tenho uma garrafa de vinho, agora na metade já.
Mas voltando. Acho que intensidade é meu combustível. Até penso que gostaria de ser meio termo. Ser a pontinha de pé que encosta lentamente na água pra sentir a temperatura antes de entrar. Mas não sou assim. Quando vejo, já pulei com roupa e tudo. Mergulho sem saber se está fria ou não, se a correnteza está forte ou leve, se tem tubarão ou peixinhos coloridos, se é fundo ou raso. Não se enganem. Nunca é fácil ser intenso. É perigoso. Nesses 42 anos de saltos ornamentais desajuizados, já me peguei muitas vezes mergulhando em mares revoltos, em lagoas escuras, sem saber como sair. Acreditem, ninguém te salva nenhuma vez, só você mesmo consegue. Mas ó... por conta da minha intensidade, também já mergulhei fundo em águas claras quentinhas, vi de perto cidades de corais incríveis que só quem mergulha sem medo consegue enxergar, entrei em cachoeiras que lavaram minha alma por dentro, flutuei gostoso em águas tão límpidas quanto o céu estrelado de abril. Do mais bonito ao mais aterrorizante mergulho, acho que pessoas meio termo correm o risco de ficar de colete dentro da lancha. É mais seguro, mas me parece um tanto chato.
Domingo. 01 de maio. 23h17.
A vizinha foi dormir.
A moça respondeu “você é uma das minhas pessoas preferidas, as que vivem cada momento com intensidade”.
Clarice e Hilda riram. Sim, elas vieram. Tomara que não demorem muito pra ir que tô com sono. Clarice gritou da cozinha “a gente veio pra ficar, Jô”. Era só o que me faltava, essas duas de volta. Senhor, me ajuda. “Trouxemos mais vinho”, disse Hilda soltando aquela risada de senhora fumante que a gente nunca sabe se ela tá rindo, engasgada ou sofrendo um infarto.
É duro.