6 de janeiro de 2012

O menino do coração gigante

Meu pai certa vez disse “eu amo tanto o Pablo, que às vezes tenho que ficar um pouco longe dele, por que parece que vai aumentando e eu tenho medo; medo de amá-lo tanto e de não suportar se alguma coisa acontecer com ele”.
O Neto era o único filho homem da casa. Quando ele se foi, aos seis anos, achei que meus pais jamais se recuperariam (na verdade eles nunca esqueceram, pode passar todo tempo do mundo, é como se fosse ontem pra eles). Ficamos, eu e minhas duas irmãs mais novas; três filhas. Minha mãe, num gesto de amor incondicional ao meu pai, reverteu a cirurgia que havia feito para não ter mais filhos e o Pablo – disse o médico na época para meus pais – foi o primeiro brasileiro a nascer pós recanalização tubária (religamento das trompas). Havia 20% de chance de dar certo!
E então, veio o Pablo. Parecia filho de japonês. Branquinho que só vendo e de olhinhos puxados. Um bebe “quase feio” se não fosse tão desejado!
Virou uma festa. Pra mim, era só o irmão caçula pra me torrar a paciência. Para minhas irmãs mais novas, um brinquedo que falava e corria pela casa. Para minha mãe, uma alegria interminável (até hoje, saibam). Para o meu pai, união de ciência e Deus (ele sempre diz isso quando fala do Pablo). Para a Loly, o bicho papão com arminhas.
O menino do coração gigante foi crescendo. Foi ganhando espaço cada vez maior dentro da gente. Uniu os outros filhos que meu pai teve. Graças ao Pablo eu fiquei anos sem dormir aos sábados, pois ele e mais dez amigos se reuniam aqui na porta de casa pra consertar e deixar motos mais barulhentas que o carro do Batman.
O Pablo também uniu meus pais após a separação. Ele briga com os dois até hoje defendo um do outro e vice versa. Para os vizinhos o Pablo é a tempestade, o El Niño da rua. A vizinha reclama do barulho que os amigos dele faz na porta de casa, mas sempre termina dizendo pra minha mãe “mas Rose, o Pablo é um amor, a gente pode xingar ele, reclamar, mas ele nunca levanta a voz, apenas diz que temos razão e pede desculpa”. Na escola, foi suspenso por bater num aluno que não respeitava a professora e quando foi chamado para conversar disse assim para a diretora “olha só, minha mãe tem problema de coração, se vocês ligarem lá e acontecer alguma coisa com ela, eu boto fogo na escola”. Então, deixaram ele explicar pra ela antes e a diretora confirmou toda história. Para Loly ele ainda continua sendo o bicho papão (mas ela é tipo aquelas mulheres de malandro, ele acaba com ela, mesmo velhinha, e ela ainda é apaixonada por ele).
Cada pessoa enxerga o Pablo de um jeito. Eu enxergo de todos os jeitos. Quando ele disse que ia comprar um Gol 94 quadrado, sem bancos, com a lataria toda destruída, eu briguei com ele. Eu disse “toma juízo moleque, isso é loucura, você vai gastar muito pra deixar ele do jeito que você quer”. Ele respondeu “Jô, eu dou razão pra você, mas olha só, eu tenho 20 anos, desde pequeno meu sonho era um gol preto quadrado, se eu não realizar agora, vai ser quando? Daqui a pouco eu caso, tenho que me preocupar com casa, filho. Essa é a hora que posso fazer a loucura que sempre sonhei”.
No final, o Gol ficou show. Fomos dar uma volta um dia desses. “Dirige aí Jô”, ele brincou. Não é que foi uma delicia? Dei 170 na estrada (meu KA não faz isso nem na descida). E ele brincou: “e aí Jô, é uma loucura boa, né?”. Eu olhei com cara de brava e ele já respondeu “mas eu não corro assim não, viu?”.

Pablo, parabéns pelo seu aniversário!
Te amo muito.

Pra você, esta música:

 


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