Marta não
abriria os olhos naquele momento, nem mesmo se tirassem o lenço. Molhado,
do começo ao fim. Era assim que deveria ser. E foi. Aquele seria o maior erro
que Marta poderia cometer e o melhor de todos eles. O que seria da vida sem os
erros, afinal?
Vendada, com
uma taça de vinho na mão, numa cama onde ela não deveria estar. Ou deveria. Ficou
ali, sozinha, por alguns instantes, imóvel. Até que começou a ouvir uma canção.
Diferente do que era acostumada a ouvir. E pôde sentir o perfume daquela
mulher, bem próximo a ela.
“Bachianas
Brasileiras numero cinco, Villa Lobos, gosta?”. “Muito”, respondeu. Estava
escuro, mas tão mais claro não enxergar, pensou. Tão mais claro, tão mais...
Sentia o
cheiro do lençol, doce. Ouvia tão perfeitamente o barulho da chuva batendo na
janela que o sentia dentro dela. A respiração daquela mulher ao seu lado fez
seu coração bater imponentemente, como se fosse sair pela sua garganta a
qualquer instante.
Quando ela sentiu
um sopro quente próximo ao seu joelho, se arrepiou com uma vergonha intensa e
absoluta. Sentiu medo, uma vontade de ir embora, de dizer que ela gostava de homens
e que tudo aquilo era uma idiotice. Mas não o fez. Continuou imóvel. Era como
se aquela boca estivesse dentro dela, em todas as partes. Dentro da alma. Mas era
apenas uma boca num joelho. Como poderia sentir vontade de fazer amor com
alguém que sequer a beijou na boca? Como poderia sentir vontade de ter aquela boca
de mulher entre suas pernas? Como poderia ser tão bom sentir uma língua, ali.
No joelho? Bem ali, por quê? Por que nenhum homem tinha feito isso antes? Ou se
o fez, por que não lembrava?
Ela sabia
que seria a melhor noite de toda sua vida. Naquele momento, ela sentia algo que
nunca tinha sentido antes. Por ninguém.
E ao
descobrir isso, tão claramente, ela colocou suas mãos sobre os cabelos daquela
mulher, num gesto de sim. Mas quem disse que aquela mulher a queria? “Era
apenas uma aposta, lembra?”.