14 de janeiro de 2013

De joelhos

Duas taças de vinho. Um lenço colorido. Uma cama. Foram os únicos objetos que Marta conseguiu ver antes de ouvir aquela mulher dizer “vou amarrar com força, vendar você, se doer, não me fale, quero que sinta a dor”.
Marta não abriria os olhos naquele momento, nem mesmo se tirassem o lenço. Molhado, do começo ao fim. Era assim que deveria ser. E foi. Aquele seria o maior erro que Marta poderia cometer e o melhor de todos eles. O que seria da vida sem os erros, afinal?
Vendada, com uma taça de vinho na mão, numa cama onde ela não deveria estar. Ou deveria. Ficou ali, sozinha, por alguns instantes, imóvel. Até que começou a ouvir uma canção. Diferente do que era acostumada a ouvir. E pôde sentir o perfume daquela mulher, bem próximo a ela.
“Bachianas Brasileiras numero cinco, Villa Lobos, gosta?”. “Muito”, respondeu. Estava escuro, mas tão mais claro não enxergar, pensou. Tão mais claro, tão mais...
Sentia o cheiro do lençol, doce. Ouvia tão perfeitamente o barulho da chuva batendo na janela que o sentia dentro dela. A respiração daquela mulher ao seu lado fez seu coração bater imponentemente, como se fosse sair pela sua garganta a qualquer instante.
Quando ela sentiu um sopro quente próximo ao seu joelho, se arrepiou com uma vergonha intensa e absoluta. Sentiu medo, uma vontade de ir embora, de dizer que ela gostava de homens e que tudo aquilo era uma idiotice. Mas não o fez. Continuou imóvel. Era como se aquela boca estivesse dentro dela, em todas as partes. Dentro da alma. Mas era apenas uma boca num joelho. Como poderia sentir vontade de fazer amor com alguém que sequer a beijou na boca? Como poderia sentir vontade de ter aquela boca de mulher entre suas pernas? Como poderia ser tão bom sentir uma língua, ali. No joelho? Bem ali, por quê? Por que nenhum homem tinha feito isso antes? Ou se o fez, por que não lembrava?
Ela sabia que seria a melhor noite de toda sua vida. Naquele momento, ela sentia algo que nunca tinha sentido antes. Por ninguém.
E ao descobrir isso, tão claramente, ela colocou suas mãos sobre os cabelos daquela mulher, num gesto de sim. Mas quem disse que aquela mulher a queria? “Era apenas uma aposta, lembra?”.