15 de outubro de 2013

A idiotice é vital para a felicidade

Esses dias atrás, conversando com uma amiga, acabamos brigando por conta do facebook. Veja só que coisa. Ela adicionou uma pessoa que nunca viu na vida, por que esse “carinha” postava coisas legais. Não é um Arnaldo Jabor, ok. Também não possui ideias próprias, ok. Ele escreve certo com “s”, ok. O tipo clássico de pessoa que posta e compartilha mensagensinha “fofas” com fotinhas. Auto ajuda, coisas de guerreiro em ação, falcão, atitude, metáforas de fácil entendimento, natureza, transformação, o poder da vida, experiência. Frases de impacto, não inteligentes, ok.  Até aí tudo bem. Quando fui ver com mais cuidado, percebi nas respostas dos comentários dele que algo estava estranho.

Resolvi (maldita hora): dar uma olhada a fundo. Momento CSI Crime Scene Investigation. Em 10 minutos descobri que aquele homem tinha mais 2 perfis no face, dos tipo Reginaldo Rossi estilizado. Os comentários eram, em sua maioria de mulheres, aparentemente, solitárias. Ele postava o dia inteiro e a madrugada inteira. O tempo todo. Mas o pior - o pior de tudo mesmo - é que ele não sabia onde estavam os próprios filhos. Descobri nos comentários em uma de suas fotos crocodilo dundee, quando ele responde para uma pessoa que perguntou sobre seus filhos: “eu não sei dos meus filhos, nem os reconheceria”. Pensei: opa, não é mesmo boa pessoa! 

Bom, pra resumir. Resolvi avisar minha amiga, já que ela tinha me dito que estava conversando com ele por bate papo. Caí com a cara no chão, claro! Ela achou minha atitude infantil, disse que achava bonito o que essa pessoa postava, que eu não tinha nada a ver com a vida dela. Uma amizade de 30 anos jogada fora.  

Disso tudo, ficaram algumas lições. 

Primeira: nem sempre o que você pensa ser melhor pra alguém é. Segunda: nem sempre virtudes que você admira são as mesmas que outras pessoas admiram. E daí que o cara não cuida dos filhos, ele posta frases bonitas. Terceira: as vezes o melhor que podemos fazer pra nós mesmos é cuidar da nossa vida. E pronto! Essa terceira lição diz tudo e resume o que é a vida: cada um cuidando da sua é melhor!

Hoje, olhei meu facebook umas duas vezes. Curti algumas coisas, falei oi pra um amigo no bate papo. E pensei: que bosta!

Mas, no fundo somos todos um “medrosos”. Medo de sair dessa nave e ficar sem saber de nada. Fulana procriou, a outra chegou da viagem, alguém noivou. Gislaine não postou nada no final de semana? Então não saiu ou tá doente, será? Marilene foi na balada com Ana Lucia? Olha, que falsa! Tamiris postou a foto do casamento e ela estava com vestido lindo de morrer. 

O pior: sair do facebook pode gerar níveis altos de ausência de convites para as festas. Ninguém vai lembrar de você. Que medo, né?

Sabe, eu não posto “partiu trabalho”, nem “partiu piscina”. Aliás, a última vez que postei foi há 20 dias atrás, uma foto de quando era criança e mais de 60 pessoas curtiram. Ui, me senti a celebridade, mas na verdade as pessoas curtiram o texto que escrevi antes das fotos. Isso sim foi bacana. Minha ideia, minhas palavras, eu. Isso por que as pessoas estão ávidas por criatividade de verdade, não só por fotinhas bonitinhas. E? Só que não!

Não sei quanto tempo mais fico dentro dessa nave brega chamada facebook. Tem coisas boas sim. Mas é tão raro. Fico mais um dia, um mês, um ano. Não sei. Só sei que estou bem cansada disso tudo. Cansada de futilidades, do menos, do sonso, do bobo. Cansada da desvalorização do tempo, do intenso, do verdadeiro. 

O virtual cresce, o real se esconde, se enfraquece. O mundo com o facebook é menos solitário, mas deve ser bem mais real, muito mais concreto. Estou bem triste por perder uma amizade. Mas daí, é outra história. Fica pra outro dia. 

Folha de São Paulo
“O Facebook já está infestado de perfis falsos. Não só daqueles que os amigos fazem para "divulgar" uma pessoa conhecida que não está a fim de entrar na rede social. A rede está cheia de perfis falsos mesmo, daqueles mal-intencionados.” (Marion Strecker - é jornalista e cofundadora do UOL) Folha de São Paulo 

Revista Época
 “O hábito de olhar o face estava tomando uma proporção incômoda. Deixava a página aberta enquanto trabalhava, sempre dando uma olhadinha. Aí vinha a vontade de debater com aquele amigo que publicou uma frase que, para mim, era preconceituosa ou não fazia sentido. Alguém respondia, eu retrucava. Eram comentários e mais comentários… E ninguém mudava de opinião; eu, inclusive. Tinha uma postura passiva: esperava receber as notícias. Se o amigo não postava muito no Facebook, eu ficava sem saber nada sobre ele. Gostei mais da minha rotina sem o facebook. Sobrou mais tempo; irrito-me menos; fortaleci as relações mais importantes para mim.” (Juliana Doretto - jornalista Colunista da Época)

Jornal Estadão
“O Wall Street Journal divulgou uma pesquisa que afirma que mais de 1/3 dos divórcios nos EUA tem a palavra “Facebook” citada no processo. O estudo é da Divorce Online, uma empresa de advogados.”

E já que falei do Arnaldo Jabor e de frases prontas...
Vou finalizar meu texto com essa ó - prontinha:
 “A idiotice é vital para a felicidade”.

Também termino esse texto com a canção que fala sobre “Solidão” do Alceu Valença. Esse já é o grande mal da humanidade: a solidão. Talvez, por isso, tantas pessoas estão se enchendo do um conforto falso e ilusório que as redes sociais proporcionam. Viramos submissos da solidão.  Acreditamos fielmente que estamos cheios de gente por perto. Nossa, 500 amigos no face? Olha?!

No fundo, nunca estivemos tão sozinhos.
E fim. Era o que havia para o momento.  

Josane H.