24 de abril de 2014

O coqueiro

"Rico processa, pobre faz macumba"
Jaciara Macumbeira

Meu Vô Orlando uma vez me perguntou o que eu queria fazer da minha vida. Eu tinha 16 anos. Hoje, com 34 anos, juro que ainda não faço a mínima ideia. Levo a vida numa boa. Sou uma pessoa do bem, me preocupo com as pessoas, sou uma boa filha, boa amiga e irmã dedicada. Sou da paz. Não frequento igreja, mas minha fé é realmente grande.
Quando minha mãe se separou do meu pai, há uns 20 anos, ela procurou – claro – uma cartomante.  O fato é que nesse dia a mulher disse a ela que na primeira casa onde ela morou com meu pai (comigo e o meu irmão neto também), alguém fez macumba e enterrou no jardim. E que aquilo era tão forte, tão forte, que iria atingir toda nossa família: meus pais e meus irmãos. É claro que ela não acreditou, meu pai menos ainda e o tempo passou.
Pois bem. Depois de muito anos, eu – eu mesmo, Josane – eis que, junto com uma amiga, vou atrás de um rapaz que lia búzios. Bom, dito pelo não dito, ele no meio da conversa diz “onde cê morou quando era pequena?”. Respondi. E ele perguntou se eu morava lá ainda, eu disse que não e ele continuou “não importa quem mora lá hoje, o trabalho que foi feito e enterrado no jardim daquela casa é coisa séria e tem que ser retirado”. Pois bem! Ninguém acreditou, contei para minha mãe, pro meu pai e nada foi feito. A vida seguiu “mais ou menos” bem.
O tempo passou e adivinhem? O coqueiro continuava lá. Afinal, todos dizem: quem tem fé, não tem medo. Até que um dia fui morar lá com meu pai. Que engraçado, né? As vezes, quando a gente sentava na varanda pra conversar, eu e meu pai falávamos sobre isso. A gente se divertia com o assunto, pra ser sincera. Mas a verdade é que sempre ficava uma pulga atrás da orelha.
Vamos falar da parte positiva primeiro. Todos os filhos do meu pai tem saúde. Macumba não pegou. Todos são bonitos (gostosos, bons de cama, simpáticos, atraentes e modestos). Macumba não pegou. Agora, no quesito “amor” e “dinheiro”. Ééééé... éééé.... maaaais ou menos! Não há reza que ajuda. Meus irmãos, de 8, tem 2 quase casando. Mas reparem... eu disse “quaaaase”. Meus primos já casaram todos, já procriaram. Enfim. Meu pai nunca morou com outra pessoa desde a separação da minha mãe. Minha mãe também não. Pra não falar dos meus irmãos, vou falar de mim. Amor? HÁ-HÁ-HÁ! Pula essa! Dinheiro? Sou publicitária. Ou seja: não posso ir pra Paris tomar um café e voltar. No máximo vou à padaria perto da agência e peço um pingado com pão na chapa.
Essa semana, depois de uma novela que dura há mais de 23 anos, o coqueiro foi arrancado ontem do jardim lá de casa. Liguei para o meu pai no final da tarde e ele disse, antes mesmo de falar oi, “sim, Josane, o coqueiro se foi”. Comemorei! Quando cheguei em casa a noite, joguei enxofre onde ele estava plantado, rezei, pedi para os Devas levar o que tinha de ruim ali pra bem longe. Meu pai ficou me olhando da varanda, o pessoal que estava no bar na frente de casa também e eu? Poxa vida, eu fiquei tão feliz que, com ou sem macumba, parecia que eu já era outra pessoa.
Hoje cedo acordei e quando encontrei meu pai na frente do computador, brinquei “e aí pai? Já se sente melhor?”. Não é que ele respondeu rindo “olha, Jô, se tinha ou não alguma coisa lá, eu sei que hoje recebi um email e fechei um negócio logo cedo”.
Bom, por enquanto eu continuo pobre e solteira. Mas que tenho a impressão que vem coisa boa por aí, ah, isso eu tenho.
Beijo, Jô