28 de outubro de 2014

Chororô na chuva




.
.
.
- Mas seu Tonho
o senhô me desce mais uma
e me conte sobre esse choro 
que vem quando chove?

Pois eu lhe digo, Dona Maria
o caso que se assucedeu foi o seguinte

fizeram daquele amô
um papel amassado no lixo
cheio de letras com chororô engasgado
rasgado nos versos escritos

fizeram daquele amô
um algodão doce feito de sal
beleza que outrora nuvem
hoje, um gosto de mar
azedo de mal

fizeram daquele amô
um rodamoinho de terra azulada
onde dançam os restos dos girassóis
que ainda enxergam sol
onde há um diacho de escuridão

girassóis que se negam a ser desplantados
que aprenderam a viver sem luz
a Deus dará
como cegos solitários
num barco flutuando no meio do rio

mas veja, minha senhora
era só amô
pobre coitado
o amô mar bonito
que as bandas de cá já ouviu falá

desses que nenhum mal faz, sabe?
daqueles que enchem os zóio d´água
emociona a alma da gente

era só amor, Dona Maria
era só amor...

- e a modi de quê acabô, Seu Tonho?

é como lhe falei
em coração de gente que não sabe o que isso
o amô é só uma palavra
escrita e amassada no papel no lixo

e vamô deixá esse conversê proto dia
que me dá um aperto só de alembrá

aquele amô que existia 
de uma boniteza
nasceu e morreu sem ter morrido

mataram de morte matada

por isso quando chove
aqui por essas bandas
a gente escuta um chororô
vindo lá do alto da cidade

o amô se perdeu sem ter pra onde ir.


Josane H.