6 de fevereiro de 2017

Remédios




Ok. Vou escrever. Meu pai está com câncer no pulmão.

E não, não tá nada bem. Por mais que amigos cheguem e perguntem “você tá bem?” e você responde “sim, tudo”. Não, não tá tudo bem. Tá tudo uma merda. E cada vez que alguém pergunta como meu pai está, parece que piora um milhão de vezes. Meu coração aperta na hora, minhas mãos gelam e o choro sobe até a garganta. TODAS AS VEZES.

Mas ainda assim, eu gosto quando perguntam. Você não se sente tão sozinha. Parece que tem mais gente junto. E eu sei que tem. 

Soubemos que era maligno semana passada. Nesse dia, minha irmã Carol veio aqui na agência buscar um medicamento que tava comigo pra levar pra ele. Fiquei esperando ela na rua e quando entrei no carro, choramos durante uns cinco minutos abraçadas. Estava chovendo forte e aquele abraço era tudo o que mais precisávamos naquele momento. De repente, paramos! Limpamos os rostos e já começamos a falar sobre como seria tudo. Guardamos a dor num canto e decidimos ali, sem que fosse preciso dizer, que não haveria mais espaço pra choro ou tristeza. Já começamos a falar sobre horários dos remédios, o pijama, a cama, a comida, o tratamento, álcool e gel, manteiga de cacau, água de coco, chá de graviola.

Foi a única vez que chorei na frente de alguém daquele jeito. Em toda minha vida.

Se eu tivesse que definir meu pai em uma palavra seria: otimismo. Nunca conheci alguém mais otimista que ele. Quando eu era criança e me perguntavam o que meu pai fazia eu respondia “meu dinheiro é capim”... O que pra muitos é mato, pro meu pai sempre foi negócio. Tão otimista que mesmo quando ele planta e precisa de chuva e não chove, ele diz “amanhã chove”. E se a chuva não vem se as contas não batem no final se o custo da colheita supera o lucro e se alguma praga tomou conta... Tudo bem, deixa pro ano que vem! Maior que a mania de sementeiro, que não desiste nunca,  é a mania do meu pai  de acreditar que tudo vai dar certo uma hora. 

A quimioterapia começa amanhã. Faz seis dias que meu pai está sem fumar. Parece pouco, né? Mas para alguém que fumava desde os 14 anos mais de oitenta cigarros por dia, isso é a maior conquista pra ele. Para nós, é a certeza de que ele quer viver mesmo. E isso é maravilhoso. Principalmente para nós, os filhos. Os oito filhos. Pois é. OITO.

Não é pra qualquer um não. Ter oito filhos com cinco mulheres diferentes. E ser absolutamente muuuuuuito amado por cada um e ter o respeito de todas as mães. Ah, isso é realmente para poucos.

A melhor parte de ter oito filhos é que quase nunca meu pai está sozinho. Nunca mesmo. Ele tem uma namorada que mora com ele e seu filho caçula de dez anos. Minha irmã Carol até cancelou sua inscrição na assessoria jurídica para ficar com ele agora. Então, só aí, já são dois filhos praticamente 24 horas ao lado dele. Ontem foi domingo e teve um momento mágico no nosso dia. Meu pai estava com um pouco de dor, deitado no quarto. Fui lá e sentei ao lado da cama, na cadeira. Ele não abriu os olhos, ficou falando baixinho. Aí a Carol entrou, sentou no puff, o Caio (caçula) deitou com ele na cama. Mas ele quase nem conversava. Continuou com os olhos fechados. De repente, eis que chega o meu irmão Renan com o primeiro e único neto do meu pai: o Benjamim, de sete meses. Pronto. Foi como se alguém trouxesse doce para uma criança. Meu pai rapidamente abriu os olhos, já sentou na cama e pegou ele no colo. Olhei pra minha irmã e sorrimos.

Durante algum tempo ficamos ali, em volta do meu pai e aquele sorriso dele, brincando com seu neto todo feliz, como se nada estivesse acontecendo. Por um minuto essa era a nossa sensação. Ficou muito claro pra mim - naquele exato momento - que alguns remédios não são de tomar. São de sentir.


Josane H.
Vai ficar tudo bem - parte 01


16 de janeiro de 2017

Meus presentes



Liguei para minha antiga terapeuta
depois de me ouvir
por um longo tempo
sobre os novos tombos
descrenças
cortes frescos
ela me falou:

volte para seus poemas
resgate seus livros
retome suas músicas
seus sonhos
não desconfie das intenções
de Deus
e por favor
nem por um minuto
jamais desista do amor
você fica linda quando ama

.
.
.

ficamos em silencio
por um tempo
e ela terminou:
volte a escrever, Jô
volte a escrever


- acabou o vinho, Helles?
- a garrafa inteira, vou pegar outra, e você?
- eu, três stellas
risos
- durma bem, Jô


algumas pessoas
são
presentes
em toda sua forma
e essência

você é uma delas
um presente no meu presente
sempre



Obrigada Helles! 

12 de janeiro de 2017

Meu lugar




Entrei na capelinha
da Nossa Senhora
do Perpétuo Socorro,
ajoelhei e perguntei
“E aí?  Se tudo isso
é pra eu enfrentar
será que a senhora pode
fazer alguma coisa pra ajudar?”
Fiquei ali por algum tempo,
e desde então, ando assim,
muito bem acompanhada.
E tudo vai ficar bem! 



Josane H. 12/01/2017


6 de janeiro de 2017

Mágica



Chorei. 
Um choro dolorido.
Descrente.
Um choro triste,
que desejava ser
esperançoso.
Mas era só tristeza.
Daqueles choros
intensos
que só terminam
quando a alma seca.
E você
não precisa sorrir
nem dizer
“tudo vai ficar bem”.
Nem ouvir.
E depois 
quando passou
veio um desejo
absurdo
de abraça-lo
forte,
mas tão forte,
que quando
seu coração
sentisse pulsar o meu
curasse todo seu corpo.
Numa espécie de mágica
que se deseja 
profundamente
para que a esperança
te encontre outra vez. 

Josane H. 
06/01/2017
  

16 de novembro de 2016

vai saber o que me deu hoje

se foi a voz de Cesaria Evora
ou a morte doce
do pescador no mar
talvez Caymmi
ou a porra da lua maior
até mesmo o velho Buk infernal

quem sabe?

só sei que voltou
e não quer ir embora
e esse perigo que corro
ao desancorar
novamente
os meus desatinos
de um porto
é pungente 

bem, eu não dizer
só foi assim
sem perceber
uma vontade
estranha
de voltar a escrever

e eu odeio essas rimas
no finais de textos incabíveis
vazios e frios 
...sabe Hilda, sua safada,
você tinha razão

Josane H. 

6 de julho de 2016

Inexplicável





a gente dá certo
porque até nossos erros nos unem
de um jeito estranhamente delicioso
e quando estamos juntas, rimos muito
e são as risadas mais sinceras


amo nossos encontros
e me divirto com o caos
que causamos uma na outra

sem superficialidades 

a gente dá certo
porque sua inconstância
combina com minha impulsividade
de uma forma louca e ácida

a gente dá certo
porque nosso beijo é quente
e nossos corpos se encaixam pra dormir
e isso é imensamente maior que sexo
e eu descobri isso com você 

é inexplicável

a gente dá certo
porque nunca dissemos que seria pra toda vida
nem fizemos promessas ridículas de amor eterno
nem tão pouco juntamos nossas coisas
ou fizemos cópias de chaves 


a gente vive um dia de cada vez 
como se fosse o primeiro 
ou o último

a gente dá certo
porque nos guardamos
de um jeito doce e amargo 

e sei que é incompreensível para os outros
e para todas as teorias idiotas de amor
 
a gente dá certo 
mesmo do jeito errado 
e isso é simplesmente 
toda a verdade que preciso
para ficar o tempo que achar que devo


Josane H.
06 de julho 2016

Para A.


22 de junho de 2016

Pequena Oração




Pode botar mais fermento aqui Dona Socorro
que a senhora bem sabe
que nessas horas meu coraçãozinho de poeta
fica pequenininho
e não cresce não

E me faça o favor
a senhora bote mais açúcar
um cadinho de leite quente
e mexa bem, viu?
Que esfriou por demais aqui dentro

Diz pro JC e pra Dona Cida
que podem aquecer até ficar no ponto


E vê se não esquece
de cobrir com chocolate

Amém

Pequena oração pra Nossa Senhora do Perpétuo Socorro
Por Josane H.