11 de março de 2017

Tango



Lá vem você outra vez
com esses textos cafonas, Jô
dois pra lá
dois pra cá
perdida em março
com suas reflexões
desajuizadas
ouvindo esses tangos antigos
numa manhã de sábado
com sol lindo
la fora
você queimando aí dentro
vem pra rua, Jô
desconhecidamente
venha nua
se queime
deixe arder
deixe essa loucura
distender
sobre esse seu olhar
bukowskiano
impuro
insólito
molhado
viva
sua vontade
sua insanidade
deixa desatar
em frente, minha amiga
é enfrentar
deixe essa história de amor
se apagar
e coloque carvão  
naquela velha chama
que você sempre gostou
de manter acesa
e sem rimar
só por dentro
dentro
dentro
sempre

viva para escrever
lembra?

escreva.


Com amor, Hilda Hilst

Escrito por Josane H. 
11/03/2017

6 de março de 2017

Notas sobre as músicas que meu fusca escutava



(sempre bom dar o play e ler junto, né?)

Eu não sei vocês, mas a música
é uma espécie de máquina do tempo
pra mim.

Hoje foi assim.
Voltei uns 20 anos.

Uma vez me apaixonei
por uma mulher chamada Layla.
Ela devia ter uns 50 anos.
Eu, dezoito.

Lembro que durante meses
no meu fusca
só tocava essa música.
Uma fita k7 inteira.

Só de “Layla”.

A vizinha
de uma amiga minha.

Nunca visitei tanto alguém.

Nem sempre Layla aparecia.
Mas a espera era o que realmente
me fascinava.

Foram muitos
“oi, boa noite” no corredor.

Até que certo dia
ela me ofereceu
uma dose de whisky. 


Josane H.
06/03/2017

13 de fevereiro de 2017

A pipa







Quando eu tinha uns nove anos de idade, meu pai apareceu em casa com uma pipa gigante de pano e madeira, no formato de uma águia. Tentei durante dias fazer ela voar. Ele chegava em casa e perguntava “ela voou, Jô?”. Eu respondia sempre “quase, pai”. E ele dizia “um dia ela voa”.

Era só começar a ventar que eu saía na rua com ela na mão e fica correndo pra lá e pra cá, mas nada. Era em vão. Até que um dia, num domingo bem cedo, ele acordou, foi lá no meu quarto e falou “levanta, vamos fazer essa pipa voar hoje”.

Entrei toda feliz na camionete com a pipa e lá fomos nós para uma estradinha sem muito movimento. Pra minha surpresa, meu pai me colocou em cima da carroceria, me entregou o carretel e foi levando a pipa até o meio da estrada. Era uma camionete F-1000, que tinha aquela janelinha no vidro traseiro e grades. Então ele voltou, entrou no carro, abriu a janelinha e falou “segura firme aqui nessa gradinha e quando o pai acelerar, você vai soltando a linha”.

Ele ligou a camionete e ficou me olhando pelo retrovisor. Fiz o que ele pediu. E quando a pipa começou a subir, meu corpo começou a subir também. Soltei toda a linha, mas segurei com força a grade e o carretel. Foi uma das maiores emoções da minha vida ver ela tão lá no alto.

Sabe aquelas cenas que você não esquece da sua infância? Essa é uma das que não esqueço. A pipa estava finalmente voando. Não só ela. Lembro certinho que meu pai me perguntava “ela tá voando, Jô?” e eu respondia “eu tô voando sim pai.. eu tô voando sim”. Ele me olhava pelo retrovisor e ria.

Pois é. Com meu pai eu aprendi muitas coisas. Com essa história, aprendi que uma hora ou outra, mesmo que demore, aquilo que você tanto deseja, acontece. As vezes pode não ser como você esperava. Voar junto com a pipa não estava nos meus planos, mas foi muito melhor do que eu imaginei. Foi... mágico.   

Josane H.
13/02/2017


6 de fevereiro de 2017

Remédios




Ok. Vou escrever. Meu pai está com câncer no pulmão.

E não, não tá nada bem. Por mais que amigos cheguem e perguntem “você tá bem?” e você responde “sim, tudo”. Não, não tá tudo bem. Tá tudo uma merda. E cada vez que alguém pergunta como meu pai está, parece que piora um milhão de vezes. Meu coração aperta na hora, minhas mãos gelam e o choro sobe até a garganta. TODAS AS VEZES.

Mas ainda assim, eu gosto quando perguntam. Você não se sente tão sozinha. Parece que tem mais gente junto. E eu sei que tem. 

Soubemos que era maligno semana passada. Nesse dia, minha irmã Carol veio aqui na agência buscar um medicamento que tava comigo pra levar pra ele. Fiquei esperando ela na rua e quando entrei no carro, choramos durante uns cinco minutos abraçadas. Estava chovendo forte e aquele abraço era tudo o que mais precisávamos naquele momento. De repente, paramos! Limpamos os rostos e já começamos a falar sobre como seria tudo. Guardamos a dor num canto e decidimos ali, sem que fosse preciso dizer, que não haveria mais espaço pra choro ou tristeza. Já começamos a falar sobre horários dos remédios, o pijama, a cama, a comida, o tratamento, álcool e gel, manteiga de cacau, água de coco, chá de graviola.

Foi a única vez que chorei na frente de alguém daquele jeito. Em toda minha vida.

Se eu tivesse que definir meu pai em uma palavra seria: otimismo. Nunca conheci alguém mais otimista que ele. Quando eu era criança e me perguntavam o que meu pai fazia eu respondia “meu dinheiro é capim”... O que pra muitos é mato, pro meu pai sempre foi negócio. Tão otimista que mesmo quando ele planta e precisa de chuva e não chove, ele diz “amanhã chove”. E se a chuva não vem se as contas não batem no final se o custo da colheita supera o lucro e se alguma praga tomou conta... Tudo bem, deixa pro ano que vem! Maior que a mania de sementeiro, que não desiste nunca,  é a mania do meu pai  de acreditar que tudo vai dar certo uma hora. 

A quimioterapia começa amanhã. Faz seis dias que meu pai está sem fumar. Parece pouco, né? Mas para alguém que fumava desde os 14 anos mais de oitenta cigarros por dia, isso é a maior conquista pra ele. Para nós, é a certeza de que ele quer viver mesmo. E isso é maravilhoso. Principalmente para nós, os filhos. Os oito filhos. Pois é. OITO.

Não é pra qualquer um não. Ter oito filhos com cinco mulheres diferentes. E ser absolutamente muuuuuuito amado por cada um e ter o respeito de todas as mães. Ah, isso é realmente para poucos.

A melhor parte de ter oito filhos é que quase nunca meu pai está sozinho. Nunca mesmo. Ele tem uma namorada que mora com ele e seu filho caçula de dez anos. Minha irmã Carol até cancelou sua inscrição na assessoria jurídica para ficar com ele agora. Então, só aí, já são dois filhos praticamente 24 horas ao lado dele. Ontem foi domingo e teve um momento mágico no nosso dia. Meu pai estava com um pouco de dor, deitado no quarto. Fui lá e sentei ao lado da cama, na cadeira. Ele não abriu os olhos, ficou falando baixinho. Aí a Carol entrou, sentou no puff, o Caio (caçula) deitou com ele na cama. Mas ele quase nem conversava. Continuou com os olhos fechados. De repente, eis que chega o meu irmão Renan com o primeiro e único neto do meu pai: o Benjamim, de sete meses. Pronto. Foi como se alguém trouxesse doce para uma criança. Meu pai rapidamente abriu os olhos, já sentou na cama e pegou ele no colo. Olhei pra minha irmã e sorrimos.

Durante algum tempo ficamos ali, em volta do meu pai e aquele sorriso dele, brincando com seu neto todo feliz, como se nada estivesse acontecendo. Por um minuto essa era a nossa sensação. Ficou muito claro pra mim - naquele exato momento - que alguns remédios não são de tomar. São de sentir.


Josane H.
Vai ficar tudo bem - parte 01


16 de janeiro de 2017

Meus presentes



Liguei para minha antiga terapeuta
depois de me ouvir
por um longo tempo
sobre os novos tombos
descrenças
cortes frescos
ela me falou:

volte para seus poemas
resgate seus livros
retome suas músicas
seus sonhos
não desconfie das intenções
de Deus
e por favor
nem por um minuto
jamais desista do amor
você fica linda quando ama

.
.
.

ficamos em silencio
por um tempo
e ela terminou:
volte a escrever, Jô
volte a escrever


- acabou o vinho, Helles?
- a garrafa inteira, vou pegar outra, e você?
- eu, três stellas
risos
- durma bem, Jô


algumas pessoas
são
presentes
em toda sua forma
e essência

você é uma delas
um presente no meu presente
sempre



Obrigada Helles! 

12 de janeiro de 2017

Meu lugar




Entrei na capelinha
da Nossa Senhora
do Perpétuo Socorro,
ajoelhei e perguntei
“E aí?  Se tudo isso
é pra eu enfrentar
será que a senhora pode
fazer alguma coisa pra ajudar?”
Fiquei ali por algum tempo,
e desde então, ando assim,
muito bem acompanhada.
E tudo vai ficar bem! 



Josane H. 12/01/2017


6 de janeiro de 2017

Mágica



Chorei. 
Um choro dolorido.
Descrente.
Um choro triste,
que desejava ser
esperançoso.
Mas era só tristeza.
Daqueles choros
intensos
que só terminam
quando a alma seca.
E você
não precisa sorrir
nem dizer
“tudo vai ficar bem”.
Nem ouvir.
E depois 
quando passou
veio um desejo
absurdo
de abraça-lo
forte,
mas tão forte,
que quando
seu coração
sentisse pulsar o meu
curasse todo seu corpo.
Numa espécie de mágica
que se deseja 
profundamente
para que a esperança
te encontre outra vez. 

Josane H. 
06/01/2017