Quando eu tinha uns nove anos de idade, meu pai apareceu em
casa com uma pipa gigante de pano e madeira, no formato de uma águia. Tentei
durante dias fazer ela voar. Ele chegava em casa e perguntava “ela voou, Jô?”.
Eu respondia sempre “quase, pai”. E ele dizia “um dia ela voa”.
Era só começar a ventar que eu saía na rua com ela na mão e
fica correndo pra lá e pra cá, mas nada. Era em vão. Até que um dia, num
domingo bem cedo, ele acordou, foi lá no meu quarto e falou “levanta, vamos
fazer essa pipa voar hoje”.
Entrei toda feliz na camionete com a pipa e lá fomos nós
para uma estradinha sem muito movimento. Pra minha surpresa, meu pai me colocou
em cima da carroceria, me entregou o carretel e foi levando a pipa até o meio
da estrada. Era uma camionete F-1000, que tinha aquela janelinha no vidro
traseiro e grades. Então ele voltou, entrou no carro, abriu a janelinha e falou
“segura firme aqui nessa gradinha e quando o pai acelerar, você vai soltando a
linha”.
Ele ligou a camionete e ficou me olhando pelo retrovisor.
Fiz o que ele pediu. E quando a pipa começou a subir, meu corpo começou a subir
também. Soltei toda a linha, mas segurei com força a grade e o carretel. Foi
uma das maiores emoções da minha vida ver ela tão lá no alto.
Sabe aquelas cenas
que você não esquece da sua infância? Essa é uma das que não esqueço. A pipa
estava finalmente voando. Não só ela. Lembro certinho que meu pai me perguntava
“ela tá voando, Jô?” e eu respondia “eu tô voando sim pai.. eu tô voando sim”.
Ele me olhava pelo retrovisor e ria.
Pois é. Com meu pai eu aprendi muitas coisas. Com essa
história, aprendi que uma hora ou outra, mesmo que demore, aquilo que você
tanto deseja, acontece. As vezes pode não ser como você esperava. Voar junto
com a pipa não estava nos meus planos, mas foi muito melhor do que eu imaginei.
Foi... mágico.
Ok. Vou
escrever. Meu pai está com câncer no pulmão.
E não, não
tá nada bem. Por mais que amigos cheguem e perguntem “você tá bem?” e você
responde “sim, tudo”. Não, não tá tudo bem. Tá tudo uma merda. E cada vez que
alguém pergunta como meu pai está, parece que piora um milhão de vezes. Meu
coração aperta na hora, minhas mãos gelam e o choro sobe até a garganta. TODAS
AS VEZES. Mas ainda assim, eu gosto quando perguntam. Você não se sente tão sozinha. Parece que tem mais gente junto. E eu sei que tem.
Soubemos que
era maligno semana passada. Nesse dia, minha irmã Carol veio aqui na agência
buscar um medicamento que tava comigo pra levar pra ele. Fiquei esperando ela
na rua e quando entrei no carro, choramos durante uns cinco minutos abraçadas. Estava
chovendo forte e aquele abraço era tudo o que mais precisávamos naquele
momento. De repente, paramos! Limpamos os rostos e já começamos a falar sobre como
seria tudo. Guardamos a dor num canto e decidimos ali, sem que fosse
preciso dizer, que não haveria mais espaço pra choro ou tristeza. Já começamos
a falar sobre horários dos remédios, o pijama, a cama, a comida, o tratamento, álcool
e gel, manteiga de cacau, água de coco, chá de graviola.
Foi a única
vez que chorei na frente de alguém daquele jeito. Em toda minha vida.
Se eu tivesse que definir meu pai em uma palavra seria: otimismo. Nunca conheci alguém mais otimista que ele. Quando eu era criança e me perguntavam o que meu pai fazia eu respondia “meu dinheiro é capim”... O que pra muitos é mato, pro meu pai sempre foi negócio. Tão otimista que mesmo quando ele planta e precisa de chuva e não chove, ele diz “amanhã chove”. E se a chuva não vem se as contas não batem no final se o custo da colheita supera o lucro e se alguma praga tomou conta... Tudo bem, deixa pro ano que vem! Maior que a mania de sementeiro, que não desiste nunca, é a mania do meu pai de acreditar que tudo vai dar certo uma hora. A
quimioterapia começa amanhã. Faz seis dias que meu pai está sem fumar. Parece pouco, né? Mas para
alguém que fumava desde os 14 anos mais de oitenta cigarros por dia, isso é a maior
conquista pra ele. Para nós, é a certeza de que ele quer viver mesmo. E
isso é maravilhoso. Principalmente para nós, os filhos. Os oito filhos. Pois é. OITO.
Não é pra
qualquer um não. Ter oito filhos com cinco mulheres diferentes. E ser
absolutamente muuuuuuito amado por cada um e ter o respeito de todas as mães.
Ah, isso é realmente para poucos.
A melhor
parte de ter oito filhos é que quase nunca meu pai está sozinho. Nunca mesmo. Ele tem uma namorada que mora com ele e seu filho caçula de dez anos. Minha irmã
Carol até cancelou sua inscrição na assessoria jurídica para ficar com ele agora. Então, só aí, já são dois filhos praticamente
24 horas ao lado dele. Ontem foi domingo e teve um momento mágico no nosso dia.
Meu pai estava com um pouco de dor, deitado no quarto. Fui lá e sentei ao lado
da cama, na cadeira. Ele não abriu os olhos, ficou falando baixinho. Aí a Carol entrou, sentou no puff,
o Caio (caçula) deitou com ele na cama. Mas ele quase nem conversava. Continuou com os
olhos fechados. De repente, eis que chega o meu irmão Renan com o primeiro e
único neto do meu pai: o Benjamim, de sete meses. Pronto. Foi como se alguém
trouxesse doce para uma criança. Meu pai rapidamente abriu os olhos, já sentou
na cama e pegou ele no colo. Olhei pra minha irmã e sorrimos.
Durante
algum tempo ficamos ali, em volta do meu pai e aquele sorriso dele, brincando com seu neto todo feliz, como se nada estivesse acontecendo. Por um minuto essa era a nossa sensação. Ficou muito claro pra mim - naquele exato momento - que alguns remédios não são de tomar. São
de sentir. Josane H. Vai ficar tudo bem - parte 01
Entrei na capelinha
da Nossa Senhora
do Perpétuo Socorro,
ajoelhei e perguntei
“E aí? Se tudo isso
é pra eu enfrentar
será que a senhora pode
fazer alguma coisa pra ajudar?” Fiquei ali por algum tempo,
e desde então, ando assim,
muito bem acompanhada.
E tudo vai ficar bem!
Um choro dolorido.
Descrente.
Um choro triste,
que desejava ser
esperançoso.
Mas era só tristeza.
Daqueles choros intensos
que só terminam
quando a alma seca.
E você
não precisa sorrir nem dizer
“tudo vai ficar bem”.
Nem ouvir.
E depois
quando passou
veio um desejo
absurdo
de abraça-lo forte,
mas tão forte,
que quando
seu coração
sentisse pulsar o meu
curasse todo seu corpo. Numa espécie de mágica
que se deseja
profundamente
para que a esperança
te encontre outra vez.