27 de outubro de 2019

Felipe






Felipe. Começamos a conviver juntos quando ele tinha uns dez anos e eu uns vinte e cinco. Por sorte a minha, ele morava na mesma cidadezinha que eu morava com meu pai. Ele foi crescendo, a gente foi se aproximando.

O Pablo e Renan vinham para a casa do pai no final de semana, todos eles se juntavam, era moto e barulheira o dia todo. Queria morrer. Mas na segunda o Felipe era meu de volta. Filme, filipeta, pipoca e sorvete. Era uma delícia ter ele na minha vida. Nunca vou esquecer de quando ele começou a me ajudar a emagrecer: eu corria e ele de bike atrás falando “vai, força, coragem, você consegue”. Depois a gente chegava em casa e pedia lanche. Virou amigo das minhas amigas, meu companheiro para ir no cinema, no teatro, no japonês.

O bom de escrever sobre as pessoas mais importantes da minha vida é lembrar de momentos incríveis que vivemos juntos. Como quando, do nada, de madrugada me dava medo de ficar sozinha e ele vinha pra casa. Ou aquele dia em que ele me pegou chorando no quarto, deitou do meu lado, me abraçou e chorou com minha dor. Ou quando ele me deu a notícia que ia estudar publicidade por que meu amor pela minha profissão o inspirava. Nesse dia, senti um misto de alegria e tristeza.

Por um minuto, enquanto penso no Felipe agora e no homem em que ele se transformou, me bate um puta orgulho. Acredito que meu pai, esteja onde estiver, deva sentir o mesmo. Todo pai e toda mãe gostaria de ter um filho como ele. Dizem que o jeito que um filho trata sua mãe diz muito sobre essa pessoa. Se isso é verdade, eu sou irmã de uma das melhores pessoas do mundo. Porque quando o Felipe fala da mãe dele, a gente até sai do chão de tanto amor.  Felipe é carinhoso, ele olha por dentro das pessoas, sabe o que quer e nunca passou por cima dos outros para realizar os seus sonhos.

Lembro de quando ele juntou dinheiro para comprar a sua primeira câmera fotográfica. Era pura felicidade. Depois quando me mostrou o primeiro ensaio, olhei nos olhos dele e falei “tá bom, mas não tá ótimo, precisa melhorar muito, aliás não tá nem bom”. Depois de um tempo fotografando até as pedras do chão, estudando, trabalhando de graça, certa vez ele me mostrou um álbum de casamento. Eu lembro que chorei no dia. De tanto orgulho.

Semana passada, numa reunião com o maior cliente da agência, foi solicitado um bom fotografo e um dos meus colegas de trabalho falou do meu irmão. Procuraram o nome dele no insta. Todo mundo começou olhar as fotos. Na hora, foi falado “quero ele”. E eu disse “gente, seria ótimo, mas meu irmão se mudou para a Nova Zelândia faz um tempinho e deve demorar pra voltar”. E de repente estava eu lá parecendo um dirigível de tão feliz e orgulhosa. Bom, pra resumir, enquanto eu observava cinco pessoas olhando o insta dele no celular e falando “olha essa foto que coisa linda”, “que trabalho incrível”, “Jô, ele é muito bom”, “meu, que foda essa foto”... eu agradeci baixinho por ser irmã do cara que todos daquela sala admiravam.