Neto. Até
um mês atrás eu dizia que tinha sete irmãos. Talvez por querer evitar pronunciar
o seu nome e por segundos ser levada até a minha infância e depois voltar para
o presente com uma saudade interminável outra vez. É tão fácil chegar até você quando
fecho os olhos. E é tão bom ver nós dois correndo pelo quintal de casa e
depois, cansados, deitados com a mãe fazendo cafuné na nossa cabeça. Nós três no
tapete da sala, como tivemos a sorte de sermos filhos de uma mãe tão nova e
amorosa, penso.
Me
lembro dos nossos banhos com esguicho, da sua risada e seus dentinhos ainda de
leite, do seu corte de cabelo torto, de você sendo o sol na apresentação da
escola por que era o menino mais alto da sala. Por segundos, sou capaz de
vivenciar aquela paz infinita que sentia antes de dormir, sabendo que você dormia
na cama ao lado da minha. Foi o que mais senti falta depois que você partiu. Durante
anos da minha vida acordei de madrugada com a voz do Vô Orlando gritando o nome
do pai. Aquele dia, com certeza, foi o primeiro pior dia da minha vida. Eu
tinha oito anos. Consigo me ver sentadinha num banco de concreto, ouvindo as pessoas
dizendo pra mim que anjo tinha que ficar no céu e que Deus tinha te levado por
que precisava de um menino bom lá em cima ao lado dele. Eu só desejava que você
fosse um menino mau, assim não teria me deixado sozinha. E achava que Deus não
era legal por ter feito isso comigo.
Acho
que só perdoei Deus uns vinte anos depois.
E
talvez por lembrar de tudo isso quando pronuncio o seu nome tenha sido o motivo
de evitar falar a quantidade de irmãos que eu tenho. Mas são OITO. Somos nove
irmãos. E nove é meu número da sorte, desde o momento em que decidi que não me
importaria em sentir todo esse turbilhão de sentimento que sinto quando pronuncio
o seu nome: “NETO”.