22 de abril de 2021

Três viagens


Eu sempre tive medo da água. Mesmo assim nunca entrei aos poucos nela. Fosse em alto mar, no meio do rio, na represa escura, na água que forma embaixo de uma cachoeira. Eu sempre pulo com tudo, como se fosse a última vez, aproveitando como ninguém cada segundo. Enquanto nado, sinto medo do que tem embaixo, mas a sensação de flutuar me convence a aproveitar.

Assim eu vivi os meus três grandes amores. E se Bukowski e Jobim estiverem certos, acabei de usar meu terceiro bilhete essa noite. Desci do trem com a alma lavada, me sequei, coloquei a roupa mais quentinha e passei reto na frente do guichê. De cabeça erguida e coração arejado, como nunca antes.  

Enquanto caminho agora, carrego na mochila desbotada algumas lembranças das minhas três longas viagens. Sinceramente, eu não sei quanto tempo leva para atravessar todas as experiências que o amor pode nos proporcionar. Há quem diga “segundos”. Há quem diga “5kg de sal”. Pra mim, foram vinte e seis anos. Exatos vinte seis anos, sempre com pensamento em alguém. Vivendo todos os dias por outra pessoa. Nunca foi só por mim em nenhum dia da minha vida desde os meus dezesseis. Se por um lado tudo ficava mais bonito quando eu estava junto a pessoa que amava, por outro não me lembro de acordar ou ir dormir sem que eu pensasse o que a faria feliz. Não lembro de pensar em mim e isso me assusta um pouco agora aos 41 anos. Mas não me arrependo. Eu não me arrependo absolutamente de nada.  

É mentira o que falam sobre experiências de vida. Eu posso até dizer aqui que nas próximas vezes eu entrarei aos poucos na água ao invés de pular com tudo. Será uma velha e popular mentira, dessas que as pessoas que escrevem contam, para deixar seus textos mais atraentes nos finais. Besteira. Hoje a certeza que tenho é que tá bom viajar sozinha. E eu jamais – jamais – imaginei que diria isso um dia.

 

Josane H.
21/04/2021