Eu sempre
tive medo da água. Mesmo assim nunca entrei aos poucos nela. Fosse em alto mar,
no meio do rio, na represa escura, na água que forma embaixo de uma cachoeira.
Eu sempre pulo com tudo, como se fosse a última vez, aproveitando como ninguém
cada segundo. Enquanto nado, sinto medo do que tem embaixo, mas a sensação de
flutuar me convence a aproveitar.
Assim eu
vivi os meus três grandes amores. E se Bukowski e Jobim estiverem certos,
acabei de usar meu terceiro bilhete essa noite. Desci do trem com a alma lavada,
me sequei, coloquei a roupa mais quentinha e passei reto na frente do guichê.
De cabeça erguida e coração arejado, como nunca antes.
Enquanto
caminho agora, carrego na mochila desbotada algumas lembranças das minhas três
longas viagens. Sinceramente, eu não sei quanto tempo leva para atravessar
todas as experiências que o amor pode nos proporcionar. Há quem diga “segundos”.
Há quem diga “5kg de sal”. Pra mim, foram vinte e seis anos. Exatos vinte seis
anos, sempre com pensamento em alguém. Vivendo todos os dias por outra pessoa. Nunca
foi só por mim em nenhum dia da minha vida desde os meus dezesseis. Se por um
lado tudo ficava mais bonito quando eu estava junto a pessoa que amava, por outro
não me lembro de acordar ou ir dormir sem que eu pensasse o que a faria feliz. Não
lembro de pensar em mim e isso me assusta um pouco agora aos 41 anos. Mas não
me arrependo. Eu não me arrependo absolutamente de nada.
É mentira o
que falam sobre experiências de vida. Eu posso até dizer aqui que nas próximas vezes
eu entrarei aos poucos na água ao invés de pular com tudo. Será uma velha e
popular mentira, dessas que as pessoas que escrevem contam, para deixar seus
textos mais atraentes nos finais. Besteira. Hoje a certeza que tenho é que tá
bom viajar sozinha. E eu jamais – jamais – imaginei que diria isso um dia.
Josane H.
21/04/2021