27 de setembro de 2011

Com licença poética

























Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

(Adélia Prado)

21 de setembro de 2011

O Homem do Futuro



Pra quem curte bons filmes, vai aí uma dica: O Homem do Futuro. Assisti ontem.  Produção brasileiríssima e maravilhosa. Historia bem elaborada, bem dirigida e com uma produção que enche nossos olhos.   
A mensagem que o filme passa de que tudo que é bom pode esperar o tempo que for preciso pra ser vivido é perfeita! E a música parece que foi feita pro filme. Impressiona! Quando menos se espera, você esta cantando Legião no meio do cinema e sentindo que o mundo pode ser seu, exatamente como você imaginava quando era jovem e essa sensação permanece na saída do cinema, te acompanha até em casa e a única coisa que você pensa antes de dormir é “ainda temos muito tempo”.   

O que é bom não escorre pelas mãos como água de torneira!
Temos nosso próprio tempo, afinal!
O que for pra ser, não tem jeito, será!

Cinema às vezes é melhor que psicólogo! Pelo menos é mais barato... rs!  

9 de setembro de 2011

Menina

Chega assim, sem perguntar se pode
Diz que ta com fome
E me chuta embaixo da mesa quando atendo o telefone
Diz que vai fazer dezoito
Que vai ganhar um carro um ponto oito
E que tem coisa melhor que molhar o biscoito
Achou bacana me encontrar sem combinar
Que até já se cansou de me ligar
Mas que agora que já é “quase uma mulher” eu bem podia retornar
Nem que fosse por educação
Nem que fosse por diversão
Nem que fosse mesmo só por tesão
Fiquei brava pelo vocabulário
Me diverti com a história do armário
E me encantei com seu jeito ávido
Cheia de novas idéias, empolgada
Curiosa, inteligente, engraçada
Chamando atenção por onde passa
Me disse que eu ainda serei dela
Que não vê a hora de ser minha cinderela (eu ri muito disso)
E acordar nos meus braços num barco a vela...

Antes de pedir a conta, ainda brinquei:
Minha Lolita, vai vivendo a vida
e quando menos esperar o amor te encontra

E ela disse, com um sorriso lindo:
Eu já encontrei, Jô!
Pegou sua bolsa, se levantou, ajeitou a saia, mexeu nos cabelos
Me deu um beijo no rosto, fez um coração no guardanapo e saiu andando
Não olhou pra trás, enquanto todos olhavam pra ela...


30 de agosto de 2011

Recado do Baejó

Enquanto branquita vive momentito Sandra de Sá
“solidão dá um tempo e vai saindo...”
Venho aqui inscrevê pra vois mi cêis!

Aquele cabra arretado (ai que óóódiiii)
Botou na minha branquita um coração maior que ela
Alguma ela aprontou pra modi tê esse fardo
Agora vive ai, com esse coração bitelo apertado
De um lado pro outro, desequilibradis, feito mussum
Disse que vai abandonar o brog um pucadim
Donde já se viu amá tanto
Só gente tola ama assim...
Ninguém de certo devia
ter um coração que não "cabe" de tão grande

Onti di uma cafungada nela e disse:
“calma branquita, vai passá...”
Ela rindo, respondeu:
“até uva passa, né Baejó?”

Quando dé (e isso é literar-mente falando),
ela vorta pra modi inscrevê um quarqué coisa aqui.
Sorte de vois mi cêis (de um ou dois coitados que cai aqui nesse furdunço).

Um abraçito do Baejó!
Axé misifi!

Vô lá enchê o saco dela e colocá na vitrola:
“ô joga fora no lixo, ô joga fora no li-i-i-i-xooo...”

 Achei essa fotinha linda pra vóis mi cê branquita:

23 de agosto de 2011

A mulher do Zé Goiaba gosta mesmo é de outra fruta



Aperte play antes de começar a ler. Fica uma delícia.


Pois vejam só como são as coisas, a mulher do Zé Goiaba, bem a Dona Amélia, quem diria! Virou assunto de boteco a pobre coitada. No bar do Tonico não se fala em outra coisa, esqueceram até do futebol. Tem gente comprando remédio que não devia só pra ouvir o que acontece na casa do Zé Goiaba, que fica ao lado da farmácia.



Agora, cá pra nós, que aquela mulher é uma semideusa, digna de um crime passional, não dá nem pra discutir! Até o circo, quando passou na rua, parou pra assistir ela estender as roupas no varal. E quando eu digo o circo, foi o circo inteiro, desde o palhaço até o gorila.
Difícil mesmo esta sendo pro Zé. O pobre do Zé Goiaba tem voltando cabisbaixo da pedreira todas as tardes. Não faz nem a boa e velha pausa na padaria pra comer o pão com mortadela e tomar sua coca-cola. Vai direto pra casa, sem olhar para os lados.
Seu Rodrigues tinha razão ao dizer que não existe família sem adultera. Mas a Dona Amélia? Onde é que vamos parar?!
Não há nada mais triste que ver um homem como o Goiaba, tão vigoroso, tão cheio de vida, que batia ponto no puteiro da Tia Dirce, ser um tremendo corno assim! É pra acabar com qualquer sujeito. Mas o que há de se fazer, não é?
Pois na verdade, companheiros, o Goiaba bem que tem culpa no cartório. Foi se engraçar bem com a Rosa do armazem. Ainda mais com a Rosinha. Essa aí não dá ponto sem nó e não dá mesmo! Não dá para os moços, se é que me entendem! Se soubesse, o Zé Goiaba. Não deu tempo de avisar.

A vida como ela é
O caso – pois vejam só como são as coisas – é que já faz mais de mês que Rosinha e Dona Amélia estão numa amizade que chega causar inveja até no casal de passarinhos que fizeram ninho no pé de jasmim manga em frente a casa do Goiaba. Viraram também, como todos, meros espectadores da vida como ela é! (salve Nelson Rodrigues que via a vida como um menino olhando pela fechadura!). 
E quando a Rosa chega na casa da Dona Amélia, tudo vira um paradeiro só na Vilinha do Sumaré. A farmácia, a padaria, a barraquinha de churros, o boteco do Tonico e até o açougue, tudo para! É como se alguém apertasse a tecla “pause” de um controle. Voltamos todos nós, velhos fanfarrões a ter dezessete anos, ouriçados, esperando pelo “vale a pena ver de novo” como se fosse o ultimo capitulo.
O coitado do Goiaba bem que tentou colocar sua cobra pra brincar, mas as aranhas botaram a cobra pra “fuma”! Lá fora, por que fumante hoje em dia, fica na sarjeta! Não que elas não acendam um cigarrinho, mas sabe como é, depois, bem depois!
Pobre Zé Goiaba! E o que há de se fazer, não é? Qual homem nunca pensou em ver sua mulher com outra mulher? É tara desde menino. Culpa dos filmes americanos que mostram aquelas peitudas se enroscando.

Amélias também gostam de rosas

Mas o que o Zé Goiaba viu numa tarde dessas, bem depois da “malhação”,
na sua cama que pagou em 24 vezes, meus amigos, nem sua imaginação um dia foi tão longe!
É uma pena. Foi muito tarde pra descobrir a mulher espetacular que tinha, por que toda Amélia “é mulher de verdade!”, mas não há uma só nesse mundo que  resista a uma Rosa – que fique claro – bem vermelha! Esquecem até dos espinhos. Afinal, quem nunca beijou uma Rosa sem se importar com espinho?


Texto: Josane Hodniki
Agosto/11

9 de agosto de 2011

e novamente ela se prepara...



"Pessoas com vidas interessantes não têm fricote. Elas trocam de cidade. Sentem-se em casa em qualquer lugar. Investem em projetos sem garantia. Interessam-se por gente que é o oposto delas. Pedem demissão sem ter outro emprego em vista. Aceitam um convite para fazer o que nunca fizeram. Estão dispostas a mudar de cor preferida, de prato predileto. Começam do zero inúmeras vezes. Não se assustam com a passagem do tempo. Sobem no palco, tosam o cabelo, fazem loucuras por amor e compram passagens só de ida..."
(Matha Medeiros)

8 de agosto de 2011

Querida Jô

Há muito tempo não recebo suas cartas ridículas e isso tem me causado certa predisposição à depressão em tardes monótonas de segundas. Só desejo que esteja lúcida o suficiente para ler estas palavras que escrevo após tomar duas garrafas daquele vinho que você incredulamente mistura com refrigerante. Esse é seu maior defeito, sabia Jô? Misturar tudo o que vê para criar sabores que lhe surpreendem e apetecem instantaneamente. Eu te odeio por isso! E odeio a palavra “apetece”. Não sei por que, mas me lembra “peteca”, aquele esporte bobo e patético.
Onde estará você, minha querida? Tenho ouvido falar do seu sumiço interminável, da sua grotesca falta de apoio a boemia, trocada por notas de três facilmente e da escassez de sorrisos em sua adorável e submissa boca – essa que tantas já cantou madrugadas, bebeu versos, lambeu beijos e mordeu estrelas. Onde estará você?
Vejo que se esqueceu dos velhos amigos e costumes corriqueiros. Até ouço Bethania cantando Roberto “eu pensei que pudesse esquecer certos velhos costumes”. Essa sua facilidade para se ausentar de “certos velhos costumes” não me convence. Acredite, minha cara, eu aposto o resto da minha exagerada adega, cheia de bons e caros vinhos (tirando aquele barato que a Hilda trouxe da ultima vez), eu aposto, que antes da primavera, você estará de volta e cantaremos juntas aquelas canções tolas e incrivelmente fascinantes (usei esta hipérbole pra te provocar, já que odeia a palavra “fascinante”, por te lembrar Fafá de Belém – não que você não goste dela, afinal já cantamos muito “abandonada por você, apaixonada por você”, rir e rir, que saudade de você, minha querida!).
Pare de personificar suas magoas e se justificar em cima de um futuro. Meu Deus, e o presente? Faz o que? Diazepam no seu dia? Já assistiu as propagandas do Bradesco seguro? Vai que...
Quantas vezes você vai encher seus balões coloridos e solta-los nesse céu cinza, cheio de nuvens carregadas? Solte seus balões em céus azuis para que possam, enfim, serem notados. E não me venha com a conversinha mansa de que depois da chuva o céu se abre. Me poupe de suas explicações falhas que não convencem nem a Marina da novela, quanto mais a você mesma!

Ainda te amo.
Clarice