Um mês antes do meu pai morrer, eu adotei a Sofia. No momento em que os
olhinhos dela, por trás de um cercadinho de feirinha de adoção da Leroy Merlin,
me olharam, eu sabia que a levaria para casa.
Na mesma semana em que a adotamos, o médico me orientou a ser mais clara com o meu pai e lhe dizer a verdade: que não havia cura para o câncer que ele tinha. Um pedaço de mim morreu no dia em que fiz isso. Naquela noite, quando cheguei em casa, a Sofia estava me esperando e ela pulava tanto de felicidade ao me ver que até me esqueci de chorar, como eu fazia todos os dias nos últimos meses.
Talvez, eu nem tenha percebido o quanto Deus é extraordinário e muito
menos entendido seus planos nas semanas seguintes.
Quando meu pai piorou, a Sofia foi diagnosticada com parvovirose. Os
dois foram internados quase no mesmo dia. Era raro chegar no hospital e
encontrar meu pai sem dor. Quando acontecia dele estar bem, ele me pedia para
mostrar fotos dela e brincava com os enfermeiros dizendo que ele tinha uma
netinha muito peluda e me acalmava dizendo que ela ficaria bem. Até o meu pai,
de certa forma, a Sofia ajudou. Às vezes eu o levava de cadeira de rodas até
uma área externa do hospital e lá ficávamos conversando, rindo, relembrando histórias
boas – enquanto a dor dele não voltava. Lembro claramente do sorriso dele no
dia em que contei que ela havia se curado e voltado para casa. Eu queria que o
mesmo acontecesse com ele.
Dizem que os animais sentem quando nossos corações se partem. Eu pude
comprovar isso quando cheguei em casa no dia em que meu pai morreu. Era uma dor
insuportável. E a Sofia ficou ao meu lado o tempo todo, quietinha, sem pular ou
latir. Quando sentei na sacada e chorei ela ficou ao meu lado, durante todo meu
banho e enquanto eu me trocava ela me olhava profundamente. Era como se ela
quisesse tirar de mim toda aquela dor. E de certa forma, ela conseguiu.
Algumas semanas depois, percebi que o meu apartamento ficou pequeno para
o tamanho da felicidade da Sofia. Era hora de mudar. E tudo mudou. Até o meu
relacionamento com minha namorada mudou. Nos tornamos uma família com a
presença dela em nossas vidas.
Até hoje, tudo muda onde Sofia chega. O apelido dela no pet onde ela
toma banho é “Vira-lata feliz”. Não tem uma pessoa que não sorri quando ela
rebola para ganhar carinho na rua ou no parque. Quando a levo na casa da minha
mãe, é como se uma criança chegasse lá. A decoração muda, objetos pequenos são
guardados, o humor de todos muda, a alegria se multiplica em segundos.
A Sofia ganhou não só duas mães, como duas avós, um avô e vários tios. Adotar
a Sofia foi um dos melhores presentes que recebi na vida. Às vezes quando pego
ela me olhando, sou capaz de sentir sua gratidão. Ela me ensinou mais sobre o
amor em sete meses do que eu aprendi em toda minha vida.
Josane H.
Agosto 2018
Agosto 2018



