26 de abril de 2022

A vida é curta


Só as pessoas a quem você entregou a chave do seu coração são capazes de te magoar profundamente. Com o tempo você entende que deixá-las entrar na sua vida é uma escolha, mas deixar que permaneçam também é. Se despeça, coloque a vassoura atrás da porta, acenda um incenso, faça uma reza forte, coloca pra tocar aquela sua música favorita e – o mais importante – troque a fechadura o quanto antes. O seu coração pode ser grande, mas a vida é curta. Aproveite com quem mereça.

Josane H.
26 de abril de 2022

28 de março de 2022

Poemas aleatórios de 2012 a 2014


Ela é mineirinha
pois veja, seu doutor
ela é daquelas de fala mansinha
arrastada
que só de lembrar
me causa arrepio
gosta de doce de leite
de vinho doce
cobre minha alma toda
com sua intensa doçura
e uma pitada estranha
de loucura
na cama
me morde inteira
arranha
tortura
quebra copo na parede
e não se cansa
pois veja, seu doutor
como não se apaixonar
não se entregar
a essa mulher?
mineira
leonina
de quarenta
e para que evitar?
se ela distribui risadas de bobeira
se ela desvia dos olhares atentos no bar
se pega na minha mão
quando me olha
profundamente?
e fazia tanto tempo
que eu não era olhada assim
por dentro
sabe, doutor?
há respostas em nosso silêncio
há sorrisos em nossos olhares
e isso nem deve ser amor
é uma “coisa" boa
que me aparece assim
tão de repente
e para que evitar?
se ela não se importa com o batom
e marca minha boca com seu vermelho?
vermelho intenso
e se diverte
me faz rir até doer a barriga
dança na rua antes de entrar no carro
dança no quarto
e tem aqueles pontinhos
as costas mais perfeitas
uma sutileza quando se aconchega
nos meus braços
no meu colo
pra terminar
seu doutor
de manhã
colada em mim
como se fizesse parte do meu corpo
a minha vida inteira
me acorda com cafuné bom
daqueles que faz a gente perder a hora
perder a cabeça
perder a razão
perder o juízo
mas quem nunca não?
pois é, seu doutor!
ela é mineirinha
sim
e ainda por cima
tem perfume no cabelo
perfume no corpo inteiro
no quarto
no travesseiro
pinta as unhas de azul
pinta o céu de lilás
de manhã
me abraça nua
e me dá um gole de café 
na boca

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Entrelaçadas naquela rua
eu e ela
sem medo
sem pudor
entrelaçadas
como se fossem luzes
em volta de árvores de natal
iluminando a noite
vazia
imprópria
indecente
essa sou eu
hoje
me transformei em uma arma
daquelas que perfuram o coração
sem deixar marcas
e vendo o sangue escorrer
não faz nada
me tornando lembranças
de pessoas que não pretendo amar
vivendo paixões
que não me levarão a lugar algum
te dou a boca da primeira mulher que irá beijar
te faço sentir pela primeira vez
um gosto que nunca mais vai esquecer
mas eu não posso ficar
não mais essa noite
nem amanhã
nem depois
não peça para que eu fique
fuja
vá para bem longe
antes que não consiga ir
não se apaixone por mim
tudo o que eu sempre desprezei
é exatamente o que me tornei.

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me abre a porta nua
completamente
mas ela pode – pensei
onde já se viu
um corpo assim?
isso deveria ser pecado
não?
velas por todos os cantos
som gostoso de ouvir
cheiro bom 
eu perguntei
“isso tudo é pra mim?”
pulamos a sala
pulamos a parte do vinho
pulamos o “como foi seu dia”
e ela pulou sobre meu corpo
nem me lembro
o que eu pensava
e se pensava
era algo agressivo
eu era um bicho ali
e ainda assim
uma poeta
indecente
que se lembra agora
de cada movimento
escrevo para não esquecer
e enquanto escrevo
lembro daquela boca
no meu corpo
entre minhas pernas
lembro da voz dela
pedindo
“me ensina fazer igual você faz”
estou perdida!
estou perdida!
eu pensava
quase de manhã
seus seios
encostavam em meus pés
seu corpo se rastejava
em cima do meu
rolava
por todos os cantos
da cama
por todos os lados
ângulos
insaciável
então
depois de pronunciar  
as palavras mais atrevidas
que já ouvi
ela parou
respirou fundo
foi se achegando de um jeito
sem tirar os olhos dos meus
abraçou meu quadril
com suas coxas
ficou toda em cima de mim
debruçou-se sobre meu peito
beijou minha testa
pulamos o cigarro
pulamos o copo d´água
pulamos o banho
dormimos
com duas pedras
grudadas
uma em cima da outra

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Sinto saudade.

Saudade
tipo
saudade dos seus cílios
na minha bochecha.
dos três cheirinhos
saudade de te abraçar
quando você vestia aquela blusa marrom
de pelo de urso de pelúcia. 

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Talvez você não se lembre
mas eu costumava colocar
a mão na sua coxa
quando você dirigia
adorava sentir o movimento
que seu músculo fazia
quando trocava de marcha
e acelerava outra vez
acho que é por isso que 
não goste tanto de carros automáticos 
(risos)

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7 de fevereiro de 2022

Sobre coragem


É preciso coragem para se viver profundamente a vida, enfrentando seus desafios com bravura e, no meio de toda loucura, ainda equilibrar os sentimentos que navegam por nosso coração. A gente tem o costume de conduzir nossa história acreditando que amanhã é outro dia e tudo bem esperar chegar um novo amanhecer para fazer, finalmente, as escolhas que merecemos. 

A verdade é que nos acostumamos a conviver com essa ideia insensata de que temos todo o tempo do mundo. E bem lá dentro – quase achando petróleo – a gente sabe que a vida é um sopro. Destino não sorte, é uma escolha diária, que se faz toda manhã logo que se abre os olhos. Você acorda, iça suas velas, olha o “x” no seu mapa, planeja a forma que vai usar o vento a seu favor e vai. No começo é normal se perder, sentir medo com qualquer chuvinha ou se cansar no trajeto, mas depois, mesmo no meio de temporais gigantescos, você sabe exatamente o que fazer com seu barco pra ele não afundar. 

Alguém já disse “nenhum vento lhe será favorável se você não sabe onde quer chegar”. Eu desenhei meu mapinha em março de 2018, algumas semanas depois que meu pai morreu. São quatro anos desde então. Tem dias em que o vento está tão forte e frio, que até meus olhos congelam e há noites em que o céu está tão extraordinário e limpo, que até minha alma flutua entre as estrelas. Mas em nenhum momento, por nenhum segundo que seja, eu me perco mais. Alguns chamam de sorte, outros de amor próprio. Eu chamo de Deus.


Josane H.

4 de fevereiro de 2022

Arrebatador

 

Entre as luzes dos carros
o vai e vem do seu corpo 
suas mãos sobre sua boca
minhas mãos entre suas coxas
te vi mordendo os lábios
de olhos fechados
duas loucas
puxou meu pulso com força
e meus dedos dançaram  
dentro do seu movimento
longo, intenso, forte
arrebatador
que delícia lembrar
ouço o barulho do meu coração
explodindo minha caixa torácica
eu viveria esse momento
durante uns duzentos anos
e não enjoaria


Ps.: decidi que vamos de ônibus para o amapá


Josane H.
 



31 de janeiro de 2022

Lingerie Vermelha

 

depois dos 40
reciprocidade
deixa de ser acessório
e se torna uma lingerie
vermelha linda, bem foda,
que a gente veste
com segundas intenções
pra pagar na mesma moeda
delícia mesmo é quando
o que vai, volta
sabe como é?
é isso
o resto é tipo aqueles brincos
comprados em lojinhas de 1 real
que a gente insiste em usar
até orelha ficar preta
entenda:
cada minuto que passa
é um minuto a menos
viva o que é recíproco 


Josane H.
Safra 1979


4 de janeiro de 2022

Leve pra voar

(clica no play para ouvir e ler junto)


Eu tenho 10 minutos
antes da próxima reunião do dia.
Estou aqui ouvindo Tenesse Whiskey
imaginando você dançando comigo. 
E nos meus pensamentos 
seu corpo se encaixa 
perfeitamente entre meus braços 
que parece estarmos suspensas no ar.  
Ouço a respiração que vem da sua boca 
chegando pertinho do meu ouvido
enquanto te abraço mais forte,
até o seu coração encostar no meu. 
É a cena mais bonita 
que eu já sonhei viver com alguém. 



Josane H.
 

04/01/2022
14h50

15 de dezembro de 2021

Despedidas

(clica ai no play pra ouvir enquanto lê... é bom)


Despedir-se de uma história que já se viveu
é menos dolorido
do que dizer adeus para o que se desejou viver

o tempo me ensinou a levantar de mesas
onde o amor já não era mais servido
onde o café era doce, porém frio
e tortas eram quentes, porém sem sabor

me lembro de todas as vezes que me levantei
de cada mesa, voltando a cadeira no lugar lentamente
e me despedindo do que eu deixava pra trás
até se tornarem boas lembranças

mas o tempo... o tempo não me preparou
para me despedir do sonho que sonhamos juntas
não me preparou para despedir-me dela
e de todos os momentos que desejei

“corre atrás, Jô”
ouço essa frase rompendo minhas artérias
e tudo o que penso é que se eu conseguir
talvez nunca confie nela novamente
e por isso – só por isso – permaneço assim
com meus pés no chão

e aquela frase
“viver é melhor que sonhar”
faz mais sentido agora pra mim

Josane H.