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| Cena do filme "Diário de uma paixão" |
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Esses dias uma velha amiga me ligou. Fazia tempo que não nos falávamos e quando percebi que a conversa seria longa, perguntei “onde você tá?”.
Eu nem sabia
que horas eram. Sabia que já passava das onze da noite. Mas nunca é tarde para
os amigos.
Quando
entrei no apartamento dela, o abraço demorado mostrou que eu deveria ter ido.
A sala
estava com algumas caixas e malas. E nem mesmo o som de Chico fez diminuir
aquela sensação de vazio, de tristeza.
Ela me
serviu uma cerveja, colocou uns queijinhos na mesa da sacada e antes de falar
qualquer palavra, apenas me olhou e disse “uma vez li no seu blog que o amor
não dói, Jô, mas dói sim”.
Estudamos
juntas, ela queria casar, casou, ter filho, teve, formar uma família, formou. E
essa família estava se desfazendo e isso sim doía. Os sonhos dela estavam se
desfazendo.
Não somos amigas de se ver sempre. Não nos vemos em nossos aniversários. Nem nos falamos no natal. E por um breve momento, eu sentada ali, ouvindo o que ela tinha pra dizer pensei “cadê as amigas dessa moça?”.
Senti,
quando o vento soprou mais forte e passou por mim, que foi Deus quem me colocou
ali. E eu tinha que fazer algo por ela. E ouvir já seria um bom começo. Meu pai
me ensinou isso. Ouvir. E foi o que eu fiz.
Depois de um
tempo percebi que na verdade ela também estava fazendo algo por mim, que talvez
nenhuma terapeuta faça.
Existe sim,
dor no amor. Mas não no próprio amor. O verdadeiro amor é intocável. Ele nasce,
cresce e, sim, pode acabar. E é justamente nesse momento, que a dor aparece e em
vários momentos.
Sentir a dor
de se perder um amor é necessário, como tomar água para matar a sede.
Primeiro vem
a dor de quando a relação acaba. O desejo acabou para a outra pessoa. Você tem
que se acostumar com a ausência dela. Isso é difícil. Entender que os velhos
costumes não vão existir mais. Que aquele restaurante que vocês frequentavam
juntos ficou no passado. Que as conversas até de madrugada não vão acontecer
mais.
Com o tempo,
surge outra dor. A dor de perceber que a vida pode ser interessante novamente. Talvez
com outro alguém, com novos amigos desse outro alguém, com a nova família desse
alguém. Aí dói. Por que estamos acostumados ao amor daquela outra que amamos,
que nos foi retribuído e vivido intensamente. E você acha que amor igual a esse
nunca mais vai ter na vida. Por que era tão bonito, tão verdadeiro, impecável. Você
não quer abrir mão daquilo que já viveu. Mas essa é a justamente a questão: já
foi, já viveu.
E na verdade,
é só o medo de recomeçar que assusta. Você já não ama aquela pessoa mais, como
antes, mas gosta do amor que sentia por ela. Se admira por isso. Se admira por
tudo o que viveu.
A última dor
é a dor de sentir que esse amor já não está mais dentro de você.
Depois de alcançarmos
juntas, eu e ela, essas respostas, compreendemos que era preciso sentir toda essa dor sim. A dor de ver as malas na sala. As caixas com as coisas dele dentro.
Não falei nada pra ela sobre mim. Não era preciso. Mas falamos sobre essas dores. Todas elas. E foi tão bom pro meu coração. Valeu mais que muitas sessões de terapia.
Não falei nada pra ela sobre mim. Não era preciso. Mas falamos sobre essas dores. Todas elas. E foi tão bom pro meu coração. Valeu mais que muitas sessões de terapia.
Nos despedimos
com os olhos cheios d´água, mas com a alma limpa.
Tão limpa quanto o céu de
manhãs de outono, depois de chover a noite toda.
Josane H.
