Às
vezes me pego pensando: qual o meu sonho verdadeiro? Parece simples responder
essa pergunta. Talvez até seja. Então me vem à cabeça uma manhã. Quase sinto o
cheiro desse sonho. Maresia, café, livros antigos.
Eu,
morando numa casa próxima ao mar.
Uma
varanda de madeira, na qual meus pés bem cedinho caminham até tocarem a areia.
O som é uma valsinha brasileira. Adoro ouvir todos os dias.
Caminho
descalça na beira do mar com meus cachorros.
O dia onde
moro é bonito, mesmo quando amanhece nublado e o mar de ressaca me lembra de
agradecer pelo vinho bom, tomado na noite anterior com meu amor, antes de
chover. Antes da gente se molhar.
Ela ainda dorme no quarto enquanto o café é passado e eu repasso a leitura daquele
velho poema interminável. E para quê pressa, afinal? Josane H. Agosto 2018
Um mês antes do meu pai morrer, eu adotei a Sofia. No momento em que os
olhinhos dela, por trás de um cercadinho de feirinha de adoção da Leroy Merlin,
me olharam, eu sabia que a levaria para casa.
Na mesma semana em que a adotamos, o médico me orientou a ser mais clara com o
meu pai e lhe dizer a verdade: que não havia cura para o câncer que ele tinha.
Um pedaço de mim morreu no dia em que fiz isso. Naquela noite, quando cheguei
em casa, a Sofia estava me esperando e ela pulava tanto de felicidade
ao me ver que até me esqueci de chorar, como eu fazia todos os dias nos últimos
meses.
Talvez, eu nem tenha percebido o quanto Deus é extraordinário e muito
menos entendido seus planos nas semanas seguintes.
Quando meu pai piorou, a Sofia foi diagnosticada com parvovirose. Os
dois foram internados quase no mesmo dia. Era raro chegar no hospital e
encontrar meu pai sem dor. Quando acontecia dele estar bem, ele me pedia para
mostrar fotos dela e brincava com os enfermeiros dizendo que ele tinha uma
netinha muito peluda e me acalmava dizendo que ela ficaria bem. Até o meu pai,
de certa forma, a Sofia ajudou. Às vezes eu o levava de cadeira de rodas até
uma área externa do hospital e lá ficávamos conversando, rindo, relembrando histórias
boas – enquanto a dor dele não voltava. Lembro claramente do sorriso dele no
dia em que contei que ela havia se curado e voltado para casa. Eu queria que o
mesmo acontecesse com ele.
Dizem que os animais sentem quando nossos corações se partem. Eu pude
comprovar isso quando cheguei em casa no dia em que meu pai morreu. Era uma dor
insuportável. E a Sofia ficou ao meu lado o tempo todo, quietinha, sem pular ou
latir. Quando sentei na sacada e chorei ela ficou ao meu lado, durante todo meu
banho e enquanto eu me trocava ela me olhava profundamente. Era como se ela
quisesse tirar de mim toda aquela dor. E de certa forma, ela conseguiu.
Algumas semanas depois, percebi que o meu apartamento ficou pequeno para
o tamanho da felicidade da Sofia. Era hora de mudar. E tudo mudou. Até o meu
relacionamento com minha namorada mudou. Nos tornamos uma família com a
presença dela em nossas vidas.
Até hoje, tudo muda onde Sofia chega. O apelido dela no pet onde ela
toma banho é “Vira-lata feliz”. Não tem uma pessoa que não sorri quando ela
rebola para ganhar carinho na rua ou no parque. Quando a levo na casa da minha
mãe, é como se uma criança chegasse lá. A decoração muda, objetos pequenos são
guardados, o humor de todos muda, a alegria se multiplica em segundos.
A Sofia ganhou não só duas mães, como duas avós, um avô e vários tios. Adotar
a Sofia foi um dos melhores presentes que recebi na vida. Às vezes quando pego
ela me olhando, sou capaz de sentir sua gratidão. Ela me ensinou mais sobre o
amor em sete meses do que eu aprendi em toda minha vida.
Oito
ou oitenta? Nunca meio termo. Com meu pai, a vida foi sempre assim. Em
tudo. Por que amar só um filho se eu tenho amor de sobra pra amar quantos eu
puder ter? Por que guardar dinheiro se eu posso ajudar meus amigos? Meu pai
nunca foi de economizar em nada. Principalmente quando o assunto é amor. Isso ele
tem de monte. Seja para doar aos seus filhos, as mães dos filhos, para os
amigos e para quem precisar. Ninguém que um dia precisou do meu pai, ficou sem
ajuda. Talvez por isso, nesse último ano, enquanto luta contra um câncer, nunca
lhe faltou nada. Não lembro de ter passado um domingo com ele que não entrasse
naquele quarto pelo menos umas dez pessoas.
Contador
de causo, tocador de moda, bom amigo e pai dedicado. Meu pai descobriu cedo que
só recebe amor quem doa amor. Por isso nunca ficou sozinho e nunca teve sequer
uma discussão pra ver quem ia ficar com ele no hospital ou em casa. Sempre
sobra gente. Acho que aprendi com a doença do meu pai que o verdadeiro sucesso é
aquele que o dinheiro não pode comprar.
E se o assunto é trabalho, meu pai é oitenta. Uma vez mandei mensagem para dar
parabéns pelo dia do agricultor e ele respondeu: “na minha vida fui trabalhador
rural para o seu avô, fui 17 dias cobrador, dono de discoteca ambulante,
comerciante de tijolos, telhas e lages. Fui vendedor de sementes na Meloniki e
também agricultor. Também fui dono da Hodservi, da PH Sementes e da Boi Brasil
Serviços, além de agenciador de negócios agropecuários e... pai”. Na verdade, ser pai é o que ele faz de
melhor. O PH é PHD no quesito pai. Sorte a minha e dos meus irmãos sermos filhos do homem que veio ao mundo pra ser pai.
Oito
ou oitenta? Nunca meio termo. Inclusive quando o assunto é tocar moda e tomar
uma. A casa do meu pai, onde eu morei por 14 anos, era tipo curva de rio. Mas
curva do rio São Francisco. Ali, naquela mesa de fora era cantoria todos os
dias. Tinha cerveja gelada para quem chegava e conversa boa pra jogar fora ou
guardar pra toda vida. Eu guardo várias.
E sabe o que mais ele e oitenta? Pra sentir dor. Faz mais de um ano que ele não sabe o que é passar um dia sem sentir dor. Certa noite, pedi para o médico no corredor do hospital para que aumentasse a dose de morfina. Ele respondeu: nunca tive um paciente que tomasse tanta morfina e não morresse. “Você tem certeza?”, ele perguntou e eu disse “sim”, ouvindo meu pai gritando de dor no quarto.
Hoje reli
um texto que escrevi para uma amiga que perdeu o pai num acidente de carro. E
tinha uma frase que dizia “Não se ensina um coração a amar, muito menos a se
despedir de alguém”. É bem isso.
Oito é o número de filhos que meu pai tem. Oitenta é o
número de cigarros que meu pai fumava todos os dias. Hoje ele não fuma mais,
mas não porque venceu o vício, mas por não ter sequer forças para segurar um
cigarro. Ele mal se lembra de como chama o remédio que ele toma pra dor. E olha
que no hospital o apelido dele é Paulo Morfina.
Oito ou oitenta? Se o seu pai estiver vivo hoje, o meu
conselho é: seja oitenta. Abrace ele bem forte. Fique assim até que seu braço
adormeça. Até que seu coração sinta o dele. Até que seus olhos transbordem
amor. Diga eu te amo. Seja grato. Eu sou. Josane H. 22/02/2018
A gente era tipo cão e gato. Os melhores amigos do mundo num minuto e no outro um correndo atrás do outro pela casa. Coisa de irmão. Você era um bebezão pesado quando pequeno. Eu, a irmã mais velha chata e ciumenta, mas muito protetora. E de repente ficamos do mesmo tamanho. Brincávamos juntos, brigávamos juntos, dormíamos juntos, aprendíamos juntos. Todo mundo perguntava se éramos gêmeos, mesmo você sendo dois anos mais novo.
Éramos tão grudados, que até subíamos juntos na cadeira na hora do parabéns, no meu e no seu aniversário. Mas só você deixava eu soprar sua velinha e ainda ficava feliz com isso. Eu não esqueço do seu sorriso, sincero e leal.
Tomávamos até banho juntos e você misturava shampoo e condicionador na mão e falava “ao invés de perder tempo passando um de cada vez, você junta os dois e passa, já lava e alisa”. E você tinha só 6 anos. Criou o 2 em 1 muito antes do fabricante. Era sensível e inteligente. Uma sabedoria tão grande, que talvez soubesse que teria pouco tempo aqui, né? Mas se tivesse me avisado Neto, eu teria te abraçado mais, por mais tempo. Eu nunca te soltaria, meu irmão.
Fazíamos tudo tão juntos, que quando você se foi, parecia que faltava uma parte de mim em tudo que eu fazia durante o dia. Mas olhar pra cama ao lado antes de dormir e não te ver era a pior parte.
Minha memória é péssima, mas quando o assunto é você, sinto até o seu cheiro. Ouço sua voz e sou capaz até de ouvir o som que fazia no corredor quando você brincava com a Menina. É como se eu tivesse te visto ontem. Seu corpinho forte, dente torto e cabelo cortado errado.
Lembro de você vestido de sol na apresentação da escola, porque era o maior de todos da sala. Um sol sorridente, meio tímido e o mais lindo de todos que eu já vi.
Hoje faz 29 anos que você se foi. Tive o privilégio de tê-lo na minha vida durante seis anos e alguns meses. Foram anos bem felizes, meu irmão. Obrigada! Onde quer que esteja agora, saiba que te amo muito.
Quando eu tinha uns nove anos de idade, meu pai apareceu em
casa com uma pipa gigante de pano e madeira, no formato de uma águia. Tentei
durante dias fazer ela voar. Ele chegava em casa e perguntava “ela voou, Jô?”.
Eu respondia sempre “quase, pai”. E ele dizia “um dia ela voa”.
Era só começar a ventar que eu saía na rua com ela na mão e
fica correndo pra lá e pra cá, mas nada. Era em vão. Até que um dia, num
domingo bem cedo, ele acordou, foi lá no meu quarto e falou “levanta, vamos
fazer essa pipa voar hoje”.
Entrei toda feliz na camionete com a pipa e lá fomos nós
para uma estradinha sem muito movimento. Pra minha surpresa, meu pai me colocou
em cima da carroceria, me entregou o carretel e foi levando a pipa até o meio
da estrada. Era uma camionete F-1000, que tinha aquela janelinha no vidro
traseiro e grades. Então ele voltou, entrou no carro, abriu a janelinha e falou
“segura firme aqui nessa gradinha e quando o pai acelerar, você vai soltando a
linha”.
Ele ligou a camionete e ficou me olhando pelo retrovisor.
Fiz o que ele pediu. E quando a pipa começou a subir, meu corpo começou a subir
também. Soltei toda a linha, mas segurei com força a grade e o carretel. Foi
uma das maiores emoções da minha vida ver ela tão lá no alto.
Sabe aquelas cenas
que você não esquece da sua infância? Essa é uma das que não esqueço. A pipa
estava finalmente voando. Não só ela. Lembro certinho que meu pai me perguntava
“ela tá voando, Jô?” e eu respondia “eu tô voando sim pai.. eu tô voando sim”.
Ele me olhava pelo retrovisor e ria.
Pois é. Com meu pai eu aprendi muitas coisas. Com essa
história, aprendi que uma hora ou outra, mesmo que demore, aquilo que você
tanto deseja, acontece. As vezes pode não ser como você esperava. Voar junto
com a pipa não estava nos meus planos, mas foi muito melhor do que eu imaginei.
Foi... mágico.