E então eu fico imaginando que meu irmão foi lá recebe-lo e
os dois se abraçaram forte, tão forte que choveu. Do céu caiu uma chuva fininha,
daquelas que antes de molhar a gente, evapora. Quando eu fecho os olhos e penso
nesse abraço, sinto uma paz e até aceito a falta que aquele abraço de camisa
branca, cheirando a cigarro e Azarro, me faz. Gosto de imaginar meu Vô Orlando caminhando
no meio de uma plantação de braquiária em algum lugar lá em cima brincando “lá
embaixo não é verde assim não Paulo”, “não é não pai”. E ali por perto minha vó
mostra borboletas para o Neto. E ele ainda é pequeno. Mesmo assim tão grande. E
tudo parece que é como deve ser. Um dia eu estarei com vocês.
Paula.
Minha irmã. As outras pessoas, fora eu e meus outros sete irmãos, não fazem
ideia do tamanho do orgulho que se sente ao dizer “sou irmã da Paula”. Essas outras
bilhões de pessoas não tem nem noção de como é incrivelmente bom quando se diz "sim e alguém já abre um sorriso. Geralmenete logo em seguida você
recebe abraços em formas de palavras. Se tem algo melhor do que o orgulho que
se sente quando alguém elogia uma pessoa que você ama, eu desconheço.
A Paula veio ao mundo para unir pessoas. Generosa, doce e muito amorosa. E forte, como a mãe. Durante anos tomou benzetacil de vinte em vinte dias na farmácia. Ela chorava (minha mãe também), mas nunca deixava de ir. Quando
ela era pequena, certa vez se perdeu no clube e foi um desespero geral, até que
a encontramos sentadinha ao lado de um senhor de uns 80 anos. Ela contava algo
pra ele no momento em que a vi e os dois riam muito. Lembro de um dia na
piscina que ela se esqueceu que estava sem boia e pulou. Acho que naquele
momento eu ganharia do Michael Phelps nos 100 metros livres. Lembrando dessa
cena agora, me recordo do nosso pai e sua frase predileta nos seus últimos
meses, antes de nos deixar “a vida é um sopro”. Nós poderíamos ter perdido ela
pra sempre e só de lembrar do rostinho dela vermelhinho dentro da água, me olhando chegar
pra ajudar, eu quase perco o ar. Eu até posso ter salvo a Paulinha naquele dia,
mas ela nos salva todos os dias, com suas respostas perfeitas na hora certa,
sua energia positiva, seu bom-humor e seu amor puro e verdadeiro por todos ao seu
redor. Mas não pensa que ela não seja capaz de te jogar um sapato “plataforma
anos 90” na cara se você for um idiota.
Te amo. E onde ele estiver, está todo orgulhoso, olhando pra você hoje. Assim como nós. Sempre, nossa "Goda".
Meu pai as
vezes dizia “escreve mais sobre sentimentos e menos sobre política”. Eu respondia
que sentimentos não pagavam contas. Pelo menos as minhas contas eu nunca paguei
escrevendo sobre o que eu sinto. Certa noite eu estava num barzinho numa rua na
Bahia, quando uma moça se aproximou da mesa e entregou umas folhas com poemas.
E disse “eu que escrevo, você pode comprar algum? Preciso pagar o hostel hoje
se não vou dormir na rua. Pague quanto quiser”. Eu comprei. Minha namorada
falou depois “pagou R$ 20 reais disso aqui?”. Eram poemas bem ruins na verdade.
Mas eu me coloquei no lugar dela. Sempre escrevi de graça quando o assunto era
o que eu pensava sobre a vida ou as coisinhas do dia a dia que a gente vai
empurrando, como se estivesse no supermercado com um carrinho. Talvez essa seja
a minha grande irresponsabilidade na vida: não precificar minhas palavras
quando elas refletem o que EU sinto. Como conseguir contar uma história tão
bonita de algo incrivelmente simples. Como o barulho ensurdecedor que faz
quando uma folha cai de uma árvore e um carro, que vinha de uma cidade distante
trazendo na mala blusas dobradas com saudade, passa por cima. Não, não é tão
fácil sentir o mundo dentro da gente desse jeito, parece barato, mas é caro. Às vezes tudo o que você quer
é apenas enxergar a folha caindo e um carro passando.
Saber a hora
de levantar-se da mesa, depois que o amor não está sendo mais servido, é algo que se
aprende com o tempo. Eu sempre tive dificuldades para saber o momento exato de
me retirar. Ficava na mesa, procurando mais um pedacinho, um motivo para eu
permanecer ali. Quantos cafés requentados a gente toma por falta de coragem de levantar da mesa e encontrar um outro lugar que sirva um bem quentinho. Às
vezes, eu ia até a cozinha, colocava água pra ferver e fazia outro. Mas é só
com o tempo mesmo que você entende que em algumas mesas, onde não se servem mais o
amor, até o café esfria rápido. Então, um dia você recolhe os
pratos, talheres e até fica grata pelo restinho de vinho na garrafa. Você enche sua taça com o que sobrou, agradece pela refeição, toma seu último gole e,
finalmente, se levanta. Josane H. 30/07/2019
E aí, como o senhor tá? Nunca me chamou de senhor, tá
chamando agora por causo di quê? Paulo Cezara. Me chame de pai. Lembra, me
falou no hospital que um dia iria doer não ter alguém no mundo pra chamar de
pai. Eu sei, perdi o meu também. Pai, tô aqui, finalzinho de uma sexta, ouvindo
esse Chamamé bom, lembrei de você. E bateu saudade? Pois é, sexta é o dia que
mais dói, era dia de chegar em casa e te acompanhar num copinho de cerveja. Isso
você fazia até de segunda. Menos quando eu estava de dieta. Conta outra, gorda.
Domingo é dia das mães. Eu tô com a minha, te mandou um beijo. Manda outro. Manda
um beijo pra Vó Tereza também, leva uma flor. A mãe vai fazer feijoada. E ela
sabe? Carol e Paula vão ajudar. E quando foi que elas fizeram uma feijoada na
vida? Diz que vai dar um jeito, sem orelha, sem pele. Mas aí não tem graça. Bom
é galo na panela, né pai? E sem pressão. E o que tiver na despensa, dispensa. Uma
letra faz uma diferença danada numa palavra, né, Jô? Eu que o diga, gostou da
moda? Boa. Manda beijo também pro Vô e pro Neto. Oi e thau. Pra não perder o
costume. Te amo, flor de ipê. Eu mais. A vida é um sopro, Jô. A música tá acabando, pai. E a saudade? Essa
não acaba não. Vamos escutar mais um pouco...
você sorriu quando viu
eu dar os meus primeiros passinhos.
Naquele mesmo ano
você viu seu pai erguer nos braços
a primeira neta na hora do parabéns.
Era eu, em 1980, no meu aniversário.
E era você o jovem feliz de 22 anos,
o pai da menininha mais amada do mundo,
de nariz empinado e cabelinho loiro,
andando pela festa.
Daqui alguns dias irá completar um ano
em que você me olhou pela última vez.
Quer saber, pai?
Eu ainda me sinto aquela garotinha
mais amada do mundo
em seu vestidinho de crochê rosa
e fralda de pano,
que você carregava todo orgulhoso
pela festa.
A menina mais sortuda. A primeira filha
do homem que veio ao mundo
para ser pai.