15 de dezembro de 2021

Despedidas

(clica ai no play pra ouvir enquanto lê... é bom)


Despedir-se de uma história que já se viveu
é menos dolorido
do que dizer adeus para o que se desejou viver

o tempo me ensinou a levantar de mesas
onde o amor já não era mais servido
onde o café era doce, porém frio
e tortas eram quentes, porém sem sabor

me lembro de todas as vezes que me levantei
de cada mesa, voltando a cadeira no lugar lentamente
e me despedindo do que eu deixava pra trás
até se tornarem boas lembranças

mas o tempo... o tempo não me preparou
para me despedir do sonho que sonhamos juntas
não me preparou para despedir-me dela
e de todos os momentos que desejei

“corre atrás, Jô”
ouço essa frase rompendo minhas artérias
e tudo o que penso é que se eu conseguir
talvez nunca confie nela novamente
e por isso – só por isso – permaneço assim
com meus pés no chão

e aquela frase
“viver é melhor que sonhar”
faz mais sentido agora pra mim

Josane H. 
 

  

25 de novembro de 2021

Imprevisível


(pra ouvir junto)



Acho que é por que
eu estava feliz comigo
antes de você chegar
e parecia que tudo bem então
deixar você entrar

depois de sete anos, contei
olha eu, mudando coisas de lugar
tirando a poeira da estante
desacomodando minha rotina

como pode, ne?

em câmera lenta
observo o coque que você faz
no meio da aula
e que se solta rapidamente  
eu fico louca

é isso, penso
é essa leveza que quero
é esse “sem pressa” altruísta
esse programa bom
que vai acontecer algum dia
se esparramando na nossa vida

“imprevisível, como você chegou”

Ps. a gente se fala quando o dia terminar


17 de novembro de 2021

Quem é você antes do amor?

 
 PLAY ANTES DE LER


O amor é correlativo
a gente sabe quando começa
quando termina
como age, quem ganha, quem perde

é por isso que me deslumbra
o que vem antes dele

não se enganem, meus amigos
o que vem antes do amor
é o jogo mais perigoso de se jogar
nunca dá pra saber o que vem pela frente
e esse improvável que reina pode machucar  

a autêntica e inofensiva bravura
de se vivenciar o desconhecido
e pular da montanha mais alta
sem saber o que há embaixo
demanda excessiva perseverança

é preciso coragem
para se viver profundamente
tudo o que vem antes do amor

são poucos os que saltam de cabeça
para o inexplorado
a maioria fica lá em cima
atados em suas cordas
não se atrevem

mas também
nunca voam

e você?
quem é você antes do amor?

Josane H. 


11 de novembro de 2021

Depoimento de uma mulher safra 1979


(clica pra ouvir enquanto lê, fica bemmm mais gostosim)


Quando você termina um relacionamento, qual a sensação? De que não deu certo ou de que foi maravilhoso enquanto durou? Pois bem, vou compartilhar uma historinha.

Esses dias conheci um casal que estão juntos há mais de 50 anos. Fiquei encantada observando os dois sempre juntos no spa que estávamos. Davam risadas entre eles, se curtindo de verdade. Meu coração encheu de alegria só de ver. Esse não enjoar um do outro me deslumbra.

Então, eu estava nadando e eles se aproximaram. Iniciamos uma boa conversa na piscina. Sabe aqueles filmes gravados no final de tarde, com tons alaranjados e sorrisos? Pois é, daria um curta belíssimo a nossa prosa... minha, com a Marta e o Teodoro. Falamos sobre a vida, trabalho, música e... sobre vinhos (e é claro que o Teo foi um senhor bem gentil e verdadeiro gentleman ao dizer que vinho bom é o que a gente gosta de tomar, depois de me ouvir dizer que odiava vinho seco – para a morte súbita de qualquer sommelier). Sutileza, né migos?

Como sou muito “conversadeira” (com orgulho, tá?), viramos amigos de trocar até telefone e marcar almoço na cidade onde eu moro.

E então me peguei agora pouco pensando tanto sobre o que conversamos.

É uma bobeira essa mania nossa de dizer “não deu certo, acabou”, esperando encontrar aquela pessoa que fique pra vida inteira, não? Analisando aqui meus 42 anos de idade e meus últimos 26 anos de relacionamentos, puts, eu fui tããão feliz, mesmo, em todos eles. Não foi o tempo todo não, fui feliz nos detalhes, até por que felicidade é isso, né?

Eu fui feliz num café da manhã e um misto quente queimado com muita risada, fui feilz numa noite em que cheguei cansada e fui recebida com um abraço apertado, fui feliz dançando La Is La Bonita na sala e imitando Tina Turner, fui extremamente feliz enquanto olhava os olhos sorrindo de quem eu amava me olhando, feliz com as flores no meio de uma tarde, feliz acendendo todas as velas dentro de um quarto antes de fazer amor. Esse exercício que fiz agora em lembrar dos momentos que fui feliz é uma das melhores formas de se perdoar alguém (isso não quer dizer voltar).

Se eu quero encontrar alguém que fique a vida toda? Até o final? Quem não quer? Mas hoje, com a maturidade (que espero até perder um pouco quando amar de novo – e tomara que eu perca) aprendi a viver de VERDADE o hoje. Eu gosto daqueles amores loucos de filme, sabe? Das loucuras que a gente faz pra conquistar? Isso me acende o coração e a mente. Eu fico tão mais criativa e concentrada, de um jeito intenso e único. Agora, meus amigos, com toda franqueza de uma mulher safra 1979 que já viveu muito e que acredita que ainda há 100 anos pela frente para morrer de amores e continuar viva: não duvidem nem por um minuto, o amor eterno é – sem dúvida alguma – o amor próprio. É esse que deve ir com você até o final.

22 de abril de 2021

Três viagens


Eu sempre tive medo da água. Mesmo assim nunca entrei aos poucos nela. Fosse em alto mar, no meio do rio, na represa escura, na água que forma embaixo de uma cachoeira. Eu sempre pulo com tudo, como se fosse a última vez, aproveitando como ninguém cada segundo. Enquanto nado, sinto medo do que tem embaixo, mas a sensação de flutuar me convence a aproveitar.

Assim eu vivi os meus três grandes amores. E se Bukowski e Jobim estiverem certos, acabei de usar meu terceiro bilhete essa noite. Desci do trem com a alma lavada, me sequei, coloquei a roupa mais quentinha e passei reto na frente do guichê. De cabeça erguida e coração arejado, como nunca antes.  

Enquanto caminho agora, carrego na mochila desbotada algumas lembranças das minhas três longas viagens. Sinceramente, eu não sei quanto tempo leva para atravessar todas as experiências que o amor pode nos proporcionar. Há quem diga “segundos”. Há quem diga “5kg de sal”. Pra mim, foram vinte e seis anos. Exatos vinte seis anos, sempre com pensamento em alguém. Vivendo todos os dias por outra pessoa. Nunca foi só por mim em nenhum dia da minha vida desde os meus dezesseis. Se por um lado tudo ficava mais bonito quando eu estava junto a pessoa que amava, por outro não me lembro de acordar ou ir dormir sem que eu pensasse o que a faria feliz. Não lembro de pensar em mim e isso me assusta um pouco agora aos 41 anos. Mas não me arrependo. Eu não me arrependo absolutamente de nada.  

É mentira o que falam sobre experiências de vida. Eu posso até dizer aqui que nas próximas vezes eu entrarei aos poucos na água ao invés de pular com tudo. Será uma velha e popular mentira, dessas que as pessoas que escrevem contam, para deixar seus textos mais atraentes nos finais. Besteira. Hoje a certeza que tenho é que tá bom viajar sozinha. E eu jamais – jamais – imaginei que diria isso um dia.

 

Josane H.
21/04/2021


22 de março de 2021

Salvador


Falar que a pandemia nos ensinou algo não é bonito. Não é de bom tom. Não faz bem ouvir. Não muda em nada nossa vida. Não muda pra quem levou a doença pra dentro de casa e sobreviveu para ver a mãe morrer depois. Não muda para quem acreditava no tratamento precoce e pediu ao médico para que não o deixasse morrer antes de ser intubado. Não superamos. Não vamos. Ninguém vai. Quando meu pai morreu de câncer no pulmão, diziam “agora ele parou de sofrer, Jô” - eu posso garantir - a dor não diminuía dentro de mim. Por que eu sabia que para o resto da minha vida ele não faria mais parte dela. E hoje, depois de três anos, a dor é do mesmo tamanho.

Ainda nem chegamos ao final dessa pandemia, muito pelo contrário, o Brasil está na segunda e mais avassaladora curva de transmissão e mortes que há no mundo nesse momento. Uma montanha imensa, que se assemelha muito a um gigantesco e congelante Everest. Em todos os sentidos. Há um frio aterrorizante dentro da gente, que não se aquece mais com um vinho bom no final da noite. Costumo dizer que se alguém está bem mentalmente, tem algo muito errado com essa pessoa. Eu não sei vocês, mas digo isso, por que os meus 5% de sanidade que existe nesse momento uso intensamente para tentar acalmar os meus 95% de puro pânico.

Quando leio “a pandemia nos ensinou...” eu penso: como somos pequenos. Como somos vazios. Como é possível que depois de séculos de ensinamentos, de livros e mais livros sobre filosofia e antropologia, ainda cremos que só pela dor aprendemos. Só pela dor, superamos. Só pela dor, lutamos. Amigos, tirem isso da cabeça de vocês o quanto antes. Acreditem, nós não amadurecemos através de nenhum sofrimento. Não é caindo de bicicleta que a criança aprende andar, mas sim pelo amor de quem está ali ao lado dela, incentivando-a tentar mais uma vez depois do tombo. E é isso que nos salva sempre, desde que o mundo é mundo: o amor. É ele que nos levanta. É ele que assopra o machucado no joelho quando o remédio faz arder. Amarmos uns aos outros verdadeiramente é nosso mais incontestável “salvador” de tudo o que somos.

Josane H.

9 de dezembro de 2020

seu olhar


entre os embaraços dos meus pensamentos
o seu olhar me procura
tão perdido quanto os impulsos falhos
das minhas sinapses dispersas

há uma leve e sinuosa brisa entre seus cílios
quando se fecham e se abrem
lentamente, como em filmes antigos de Almodóvar
refletindo o verde e vermelho na retina

amo a cor dos seus olhos
a cor da sua alma fulgente
amo a forma como permanece tão nítida
entre os embaraços dos meus pensamentos

Josane H.