16 de setembro de 2019

Liga pra sua tia

(clica ai pra ouvir enquanto lê, sempre mió)


É que na verdade tudo o que a gente precisa as vezes é abrir um bom vinho e ouvir um pouco de Rod Stewart. O mundo tá esquisito demais pra gente não falar que ama alguém pelo menos uma vez no dia. Sabe aquela sua tia que te recebia na casa dela nas férias quando você era pequeno? Liga pra ela. Fala eu te amo tia, tá precisando de alguma coisa? Não dá pra mudar o mundo, mas você pode mudar o dia de alguém. Escute as músicas que marcaram sua vida, mande uma música para alguém que vai lembrar de algo que viveram juntos quando ouvir. Lembra daquela pessoa que você morreu de amores? Pois é, a vida passou e você sobreviveu. Por que ainda guarda mágoas? Perdoe. Não há nada nesse mundo mais bonito que perdoar. E a pessoa nem precisa saber. Mas o seu coração precisa. Por que somente um coração leve é capaz de voar. E no chão, a vida perde a graça. Enquanto toca a sua música favorita do Rod Stewart, se olhe no espelho. Dance, cante, sorria. Agradeça. Boa sorte. E aí, já ligou pra sua tia?

Josane H.


8 de agosto de 2019

Céu






E então eu fico imaginando que meu irmão foi lá recebe-lo e os dois se abraçaram forte, tão forte que choveu. Do céu caiu uma chuva fininha, daquelas que antes de molhar a gente, evapora. Quando eu fecho os olhos e penso nesse abraço, sinto uma paz e até aceito a falta que aquele abraço de camisa branca, cheirando a cigarro e Azarro, me faz. Gosto de imaginar meu Vô Orlando caminhando no meio de uma plantação de braquiária em algum lugar lá em cima brincando “lá embaixo não é verde assim não Paulo”, “não é não pai”. E ali por perto minha vó mostra borboletas para o Neto. E ele ainda é pequeno. Mesmo assim tão grande. E tudo parece que é como deve ser. Um dia eu estarei com vocês.

Josane H



Coração de Paulinha



Paula. Minha irmã. As outras pessoas, fora eu e meus outros sete irmãos, não fazem ideia do tamanho do orgulho que se sente ao dizer “sou irmã da Paula”. Essas outras bilhões de pessoas não tem nem noção de como é incrivelmente bom quando se diz "sim e alguém já abre um sorriso. Geralmenete logo em seguida você recebe abraços em formas de palavras. Se tem algo melhor do que o orgulho que se sente quando alguém elogia uma pessoa que você ama, eu desconheço.
A Paula veio ao mundo para unir pessoas. Generosa, doce e muito amorosa. E forte, como a mãe. Durante anos tomou benzetacil de vinte em vinte dias na farmácia. Ela chorava (minha mãe também), mas nunca deixava de ir.
Quando ela era pequena, certa vez se perdeu no clube e foi um desespero geral, até que a encontramos sentadinha ao lado de um senhor de uns 80 anos. Ela contava algo pra ele no momento em que a vi e os dois riam muito. Lembro de um dia na piscina que ela se esqueceu que estava sem boia e pulou. Acho que naquele momento eu ganharia do Michael Phelps nos 100 metros livres. Lembrando dessa cena agora, me recordo do nosso pai e sua frase predileta nos seus últimos meses, antes de nos deixar “a vida é um sopro”. Nós poderíamos ter perdido ela pra sempre e só de lembrar do rostinho dela vermelhinho dentro da água, me olhando chegar pra ajudar, eu quase perco o ar. Eu até posso ter salvo a Paulinha naquele dia, mas ela nos salva todos os dias, com suas respostas perfeitas na hora certa, sua energia positiva, seu bom-humor e seu amor puro e verdadeiro por todos ao seu redor. Mas não pensa que ela não seja capaz de te jogar um sapato “plataforma anos 90” na cara se você for um idiota.

Te amo. E onde ele estiver, está todo orgulhoso, olhando pra você hoje. Assim como nós. Sempre, nossa "Goda". 

Josane H.

1 de agosto de 2019

Machado




O fogo também arde
enquanto queima?
Qual será a dor que ele sente
enquanto é chama?
Ao olhar para uma lareira
você se pergunta sobre
a dor da madeira?  
A dor da árvore?
Dói a brasa, o fogo
ou o que é queimado?
Quando tudo acaba, 
somos cinzas.
Fogo, brasa, madeira.
Pulmão.

Josane H.

31 de julho de 2019

Tudo tem seu preço





Meu pai as vezes dizia “escreve mais sobre sentimentos e menos sobre política”. Eu respondia que sentimentos não pagavam contas. Pelo menos as minhas contas eu nunca paguei escrevendo sobre o que eu sinto. Certa noite eu estava num barzinho numa rua na Bahia, quando uma moça se aproximou da mesa e entregou umas folhas com poemas. E disse “eu que escrevo, você pode comprar algum? Preciso pagar o hostel hoje se não vou dormir na rua. Pague quanto quiser”. Eu comprei. Minha namorada falou depois “pagou R$ 20 reais disso aqui?”. Eram poemas bem ruins na verdade. Mas eu me coloquei no lugar dela. Sempre escrevi de graça quando o assunto era o que eu pensava sobre a vida ou as coisinhas do dia a dia que a gente vai empurrando, como se estivesse no supermercado com um carrinho. Talvez essa seja a minha grande irresponsabilidade na vida: não precificar minhas palavras quando elas refletem o que EU sinto. Como conseguir contar uma história tão bonita de algo incrivelmente simples. Como o barulho ensurdecedor que faz quando uma folha cai de uma árvore e um carro, que vinha de uma cidade distante trazendo na mala blusas dobradas com saudade, passa por cima. Não, não é tão fácil sentir o mundo dentro da gente desse jeito, parece barato, mas é caro. Às vezes tudo o que você quer é apenas enxergar a folha caindo e um carro passando. 

Josane H. 


30 de julho de 2019

O último gole




Saber a hora de levantar-se da mesa, depois que o amor não está sendo mais servido, é algo que se aprende com o tempo. Eu sempre tive dificuldades para saber o momento exato de me retirar. Ficava na mesa, procurando mais um pedacinho, um motivo para eu permanecer ali. Quantos cafés requentados a gente toma por falta de coragem de levantar da mesa e encontrar um outro lugar que sirva um bem quentinho. Às vezes, eu ia até a cozinha, colocava água pra ferver e fazia outro. Mas é só com o tempo mesmo que você entende que em algumas mesas, onde não se servem mais o amor, até o café esfria rápido. Então, um dia você recolhe os pratos, talheres e até fica grata pelo restinho de vinho na garrafa. Você enche sua taça com o que sobrou, agradece pela refeição, toma seu último gole e, finalmente, se levanta.

Josane H.
30/07/2019


10 de maio de 2019

Aquela prosa boa





E aí, como o senhor tá? Nunca me chamou de senhor, tá chamando agora por causo di quê? Paulo Cezara. Me chame de pai. Lembra, me falou no hospital que um dia iria doer não ter alguém no mundo pra chamar de pai. Eu sei, perdi o meu também. Pai, tô aqui, finalzinho de uma sexta, ouvindo esse Chamamé bom, lembrei de você. E bateu saudade? Pois é, sexta é o dia que mais dói, era dia de chegar em casa e te acompanhar num copinho de cerveja. Isso você fazia até de segunda. Menos quando eu estava de dieta. Conta outra, gorda. Domingo é dia das mães. Eu tô com a minha, te mandou um beijo. Manda outro. Manda um beijo pra Vó Tereza também, leva uma flor. A mãe vai fazer feijoada. E ela sabe? Carol e Paula vão ajudar. E quando foi que elas fizeram uma feijoada na vida? Diz que vai dar um jeito, sem orelha, sem pele. Mas aí não tem graça. Bom é galo na panela, né pai? E sem pressão. E o que tiver na despensa, dispensa. Uma letra faz uma diferença danada numa palavra, né, Jô? Eu que o diga, gostou da moda? Boa. Manda beijo também pro Vô e pro Neto. Oi e thau. Pra não perder o costume. Te amo, flor de ipê. Eu mais. A vida é um sopro, Jô. A música tá acabando, pai. E a saudade? Essa não acaba não. Vamos escutar mais um pouco...

Josane H.
10/05/2019
17h30