29 de outubro de 2019

Neto




Neto. Até um mês atrás eu dizia que tinha sete irmãos. Talvez por querer evitar pronunciar o seu nome e por segundos ser levada até a minha infância e depois voltar para o presente com uma saudade interminável outra vez. É tão fácil chegar até você quando fecho os olhos. E é tão bom ver nós dois correndo pelo quintal de casa e depois, cansados, deitados com a mãe fazendo cafuné na nossa cabeça. Nós três no tapete da sala, como tivemos a sorte de sermos filhos de uma mãe tão nova e amorosa, penso.

Me lembro dos nossos banhos com esguicho, da sua risada e seus dentinhos ainda de leite, do seu corte de cabelo torto, de você sendo o sol na apresentação da escola por que era o menino mais alto da sala. Por segundos, sou capaz de vivenciar aquela paz infinita que sentia antes de dormir, sabendo que você dormia na cama ao lado da minha. Foi o que mais senti falta depois que você partiu. Durante anos da minha vida acordei de madrugada com a voz do Vô Orlando gritando o nome do pai. Aquele dia, com certeza, foi o primeiro pior dia da minha vida. Eu tinha oito anos. Consigo me ver sentadinha num banco de concreto, ouvindo as pessoas dizendo pra mim que anjo tinha que ficar no céu e que Deus tinha te levado por que precisava de um menino bom lá em cima ao lado dele. Eu só desejava que você fosse um menino mau, assim não teria me deixado sozinha. E achava que Deus não era legal por ter feito isso comigo.

Acho que só perdoei Deus uns vinte anos depois.

E talvez por lembrar de tudo isso quando pronuncio o seu nome tenha sido o motivo de evitar falar a quantidade de irmãos que eu tenho. Mas são OITO. Somos nove irmãos. E nove é meu número da sorte, desde o momento em que decidi que não me importaria em sentir todo esse turbilhão de sentimento que sinto quando pronuncio o seu nome: “NETO”.

27 de outubro de 2019

Felipe






Felipe. Começamos a conviver juntos quando ele tinha uns dez anos e eu uns vinte e cinco. Por sorte a minha, ele morava na mesma cidadezinha que eu morava com meu pai. Ele foi crescendo, a gente foi se aproximando.

O Pablo e Renan vinham para a casa do pai no final de semana, todos eles se juntavam, era moto e barulheira o dia todo. Queria morrer. Mas na segunda o Felipe era meu de volta. Filme, filipeta, pipoca e sorvete. Era uma delícia ter ele na minha vida. Nunca vou esquecer de quando ele começou a me ajudar a emagrecer: eu corria e ele de bike atrás falando “vai, força, coragem, você consegue”. Depois a gente chegava em casa e pedia lanche. Virou amigo das minhas amigas, meu companheiro para ir no cinema, no teatro, no japonês.

O bom de escrever sobre as pessoas mais importantes da minha vida é lembrar de momentos incríveis que vivemos juntos. Como quando, do nada, de madrugada me dava medo de ficar sozinha e ele vinha pra casa. Ou aquele dia em que ele me pegou chorando no quarto, deitou do meu lado, me abraçou e chorou com minha dor. Ou quando ele me deu a notícia que ia estudar publicidade por que meu amor pela minha profissão o inspirava. Nesse dia, senti um misto de alegria e tristeza.

Por um minuto, enquanto penso no Felipe agora e no homem em que ele se transformou, me bate um puta orgulho. Acredito que meu pai, esteja onde estiver, deva sentir o mesmo. Todo pai e toda mãe gostaria de ter um filho como ele. Dizem que o jeito que um filho trata sua mãe diz muito sobre essa pessoa. Se isso é verdade, eu sou irmã de uma das melhores pessoas do mundo. Porque quando o Felipe fala da mãe dele, a gente até sai do chão de tanto amor.  Felipe é carinhoso, ele olha por dentro das pessoas, sabe o que quer e nunca passou por cima dos outros para realizar os seus sonhos.

Lembro de quando ele juntou dinheiro para comprar a sua primeira câmera fotográfica. Era pura felicidade. Depois quando me mostrou o primeiro ensaio, olhei nos olhos dele e falei “tá bom, mas não tá ótimo, precisa melhorar muito, aliás não tá nem bom”. Depois de um tempo fotografando até as pedras do chão, estudando, trabalhando de graça, certa vez ele me mostrou um álbum de casamento. Eu lembro que chorei no dia. De tanto orgulho.

Semana passada, numa reunião com o maior cliente da agência, foi solicitado um bom fotografo e um dos meus colegas de trabalho falou do meu irmão. Procuraram o nome dele no insta. Todo mundo começou olhar as fotos. Na hora, foi falado “quero ele”. E eu disse “gente, seria ótimo, mas meu irmão se mudou para a Nova Zelândia faz um tempinho e deve demorar pra voltar”. E de repente estava eu lá parecendo um dirigível de tão feliz e orgulhosa. Bom, pra resumir, enquanto eu observava cinco pessoas olhando o insta dele no celular e falando “olha essa foto que coisa linda”, “que trabalho incrível”, “Jô, ele é muito bom”, “meu, que foda essa foto”... eu agradeci baixinho por ser irmã do cara que todos daquela sala admiravam.



23 de outubro de 2019

Carol




Existem mais de 7 bilhões de pessoas no mundo. A Carol é a minha MELHOR amiga. Por sorte, além de melhor amiga, ela é minha irmã. É ela também a pessoa que eu mais briguei e brigo na vida. E a que perdoo mais rápido, entre todas. Mas na maioria das vezes, nem lembramos de perdoar ou pedir desculpas. Por que nunca foi preciso. São raras as pessoas que te conhecem mais do que você mesma. A Carol é essa pessoa na minha vida. Que me conhece tão profundamente, mais tão profundamente, que quando preciso me ouvir por dentro, peço ajuda a ela. Foi a Carol, entre todos nós irmãos, que parou sua vida durante um ano para estar ao lado do meu pai no último ano da sua vida. Há dores que ela sentiu que eu jamais sentirei. E minha gratidão por ela, por maior que seja, sei que nunca será o suficiente.

A Carol é aquele tipo de pessoa que faz a gente rir. Que faz careta para crianças na rua, que tem sempre uma playlist animada no celular, que nas festas sobe no palco e canta com os músicos, que vira palhaça nos churrascos. Ela arruma tempo pra tudo. Pra ajudar a nossa mãe, para ajudar nossos irmãos, uma amigo e até mesmo algum desconhecido. Quem precisou da Carol um dia, nunca ficou na mão. Talvez por isso ela tenha se tornado uma Advogada. E se caso ela te falar que não vai dar para ir naquele evento tal, pode acreditar: ela não quer ir. E não vai arrumar desculpas pra te dizer isso. A maior virtude da Carol também é o seu maior defeito: a SINCERIDADE.


Eu tinha sete anos quando ela nasceu. Como eu poderia imaginar que aquela mini pessoinha no meu colo na maternidade, carequinha e brava, iria se tornar essa mulher tão incrível? Forte, destemida, inteligente e - em raríssimos momentos - doce. A Carol é aquele tipo de pessoa que fala “eu te amo” umas duas vezes no ano no máximo pra você, mas que demonstra esse sentimento de várias formas possíveis. Basta saber enxergar. Faz mais de trinta anos que venho aprendendo. Uma hora chego lá.


Josane H. 

16 de setembro de 2019

Liga pra sua tia

(clica ai pra ouvir enquanto lê, sempre mió)


É que na verdade tudo o que a gente precisa as vezes é abrir um bom vinho e ouvir um pouco de Rod Stewart. O mundo tá esquisito demais pra gente não falar que ama alguém pelo menos uma vez no dia. Sabe aquela sua tia que te recebia na casa dela nas férias quando você era pequeno? Liga pra ela. Fala eu te amo tia, tá precisando de alguma coisa? Não dá pra mudar o mundo, mas você pode mudar o dia de alguém. Escute as músicas que marcaram sua vida, mande uma música para alguém que vai lembrar de algo que viveram juntos quando ouvir. Lembra daquela pessoa que você morreu de amores? Pois é, a vida passou e você sobreviveu. Por que ainda guarda mágoas? Perdoe. Não há nada nesse mundo mais bonito que perdoar. E a pessoa nem precisa saber. Mas o seu coração precisa. Por que somente um coração leve é capaz de voar. E no chão, a vida perde a graça. Enquanto toca a sua música favorita do Rod Stewart, se olhe no espelho. Dance, cante, sorria. Agradeça. Boa sorte. E aí, já ligou pra sua tia?

Josane H.


8 de agosto de 2019

Céu






E então eu fico imaginando que meu irmão foi lá recebe-lo e os dois se abraçaram forte, tão forte que choveu. Do céu caiu uma chuva fininha, daquelas que antes de molhar a gente, evapora. Quando eu fecho os olhos e penso nesse abraço, sinto uma paz e até aceito a falta que aquele abraço de camisa branca, cheirando a cigarro e Azarro, me faz. Gosto de imaginar meu Vô Orlando caminhando no meio de uma plantação de braquiária em algum lugar lá em cima brincando “lá embaixo não é verde assim não Paulo”, “não é não pai”. E ali por perto minha vó mostra borboletas para o Neto. E ele ainda é pequeno. Mesmo assim tão grande. E tudo parece que é como deve ser. Um dia eu estarei com vocês.

Josane H



Coração de Paulinha



Paula. Minha irmã. As outras pessoas, fora eu e meus outros sete irmãos, não fazem ideia do tamanho do orgulho que se sente ao dizer “sou irmã da Paula”. Essas outras bilhões de pessoas não tem nem noção de como é incrivelmente bom quando se diz "sim e alguém já abre um sorriso. Geralmenete logo em seguida você recebe abraços em formas de palavras. Se tem algo melhor do que o orgulho que se sente quando alguém elogia uma pessoa que você ama, eu desconheço.
A Paula veio ao mundo para unir pessoas. Generosa, doce e muito amorosa. E forte, como a mãe. Durante anos tomou benzetacil de vinte em vinte dias na farmácia. Ela chorava (minha mãe também), mas nunca deixava de ir.
Quando ela era pequena, certa vez se perdeu no clube e foi um desespero geral, até que a encontramos sentadinha ao lado de um senhor de uns 80 anos. Ela contava algo pra ele no momento em que a vi e os dois riam muito. Lembro de um dia na piscina que ela se esqueceu que estava sem boia e pulou. Acho que naquele momento eu ganharia do Michael Phelps nos 100 metros livres. Lembrando dessa cena agora, me recordo do nosso pai e sua frase predileta nos seus últimos meses, antes de nos deixar “a vida é um sopro”. Nós poderíamos ter perdido ela pra sempre e só de lembrar do rostinho dela vermelhinho dentro da água, me olhando chegar pra ajudar, eu quase perco o ar. Eu até posso ter salvo a Paulinha naquele dia, mas ela nos salva todos os dias, com suas respostas perfeitas na hora certa, sua energia positiva, seu bom-humor e seu amor puro e verdadeiro por todos ao seu redor. Mas não pensa que ela não seja capaz de te jogar um sapato “plataforma anos 90” na cara se você for um idiota.

Te amo. E onde ele estiver, está todo orgulhoso, olhando pra você hoje. Assim como nós. Sempre, nossa "Goda". 

Josane H.

1 de agosto de 2019

Machado




O fogo também arde
enquanto queima?
Qual será a dor que ele sente
enquanto é chama?
Ao olhar para uma lareira
você se pergunta sobre
a dor da madeira?  
A dor da árvore?
Dói a brasa, o fogo
ou o que é queimado?
Quando tudo acaba, 
somos cinzas.
Fogo, brasa, madeira.
Pulmão.

Josane H.