9 de dezembro de 2020

seu olhar


entre os embaraços dos meus pensamentos
o seu olhar me procura
tão perdido quanto os impulsos falhos
das minhas sinapses dispersas

há uma leve e sinuosa brisa entre seus cílios
quando se fecham e se abrem
lentamente, como em filmes antigos de Almodóvar
refletindo o verde e vermelho na retina

amo a cor dos seus olhos
a cor da sua alma fulgente
amo a forma como permanece tão nítida
entre os embaraços dos meus pensamentos

Josane H.


28 de janeiro de 2020

Não há despedidas para as melhores coisas da vida




A gente nunca sabe quando será a última vez. Existiu a última mamadeira que nossa mãe preparou de manhã. Existiu a última noite em que seu pai conseguiu te carregar dormindo da sala até o quarto. Existiu uma tarde em que brincamos com nossos amigos na rua pela última vez. Existiu aquele pedaço de bolo feito pela nossa vó que nunca imaginamos que seria o último. Quantas vezes vivemos pela última vez um grande momento? Não foi em outra vida. Foi nessa. É nessa. O tempo todo. É agora. Há momentos que não vão existir novamente. E não podemos mudar isso. Nunca vamos saber quando será a última vez que olharemos para um céu azul, uma chuva caindo ou um arco-íris. Mas haverá uma última vez. Um dia você vai deitar no colo da sua mãe para chorar e não existirá uma outra chance. Vai carregar seu filho no seu colo até cansar seus braços, sem saber que será a última vez que fará isso. E sentirá saudade. E é assim todos os dias. É assim para todas as pessoas no mundo inteiro. Sempre haverá a primeira vez e sempre haverá a última vez. Em tudo. Não há despedidas para as melhores coisas da vida. Por isso é tão urgente os perdões. Por isso é tão urgente os abraços demorados. É tão urgente o “eu te amo” ainda na cama antes do café. O bilhete “volta logo” na mala. O “vem aqui em casa” ao invés de uma conversa por aplicativo. O almoço de domingo com a família conectada e celulares desligados. O desenho da casinha, sol e árvore com moldura na casa do vô. Houve um dia em que eu e meu pai cantamos “mão do tempo” na varanda de casa sem saber que seria a última vez. E também houve um último áudio gravado de um amigo antes dele se dar um tiro. A gente nunca sabe quando será a última vez. E você qual foi a última vez que viveu um momento que nunca mais existiu?  

Josane H.  

17 de dezembro de 2019

Sorte




Você vai ser pra sempre a minha melhor lembrança do que um amor verdadeiro pode ensinar. Você vai ser pra sempre o maior significado da força que nasce quando uma família se forma. O meu primeiro lar sem ser o dos meus pais, eu construí ao seu lado. Você será sempre aquele momento decisivo da minha vida de correr atrás dos meus sonhos. E foi você quem fez eu enxergar o quanto grande eu posso ser. Não foi outra pessoa. Foi você. E eu serei grata por toda minha existência. Eu sei que em algum lugar dos seus olhos esverdeados tem um reflexo meu. E quem saiba você goste mais de poemas agora? Já que eu aprendi a fazer contas? Um dia vamos entender melhor a escolha de não compartilharmos mais uma vida juntas. Mas nunca vamos deixar de saber o que nos juntou. E isso é o que importa. O que nos uniu foi um sentimento do qual eu me orgulho muito. E sou grata. Aquele casal que divertia todo mundo nas festas sempre vai existir dentro da gente em algum lugar. Sorte na vida é uma amizade começar depois que um amor termina. Obrigada por tudo!

Para A.


Josane H.


16 de dezembro de 2019

Nossos domingos



(clica no play pra ouvir junto enquanto lê)

Você me esperava cedo com café quente e pão com manteiga. Me contava sobre a rota que tinha pensado, enquanto eu organizava o carro. Eu colocava atrás do banco uma garrafa de água e você pegava sua sacolinha com morfina e cigarros. Os nossos domingos eram assim. “Domingo é o dia da Jô”, você dizia. Se soubesse, pai, o quanto me arrependo de não ter sido “meus dias” todos aqueles seus últimos meses. O nosso rally no meio daquela chuva. A gente no meio de uma plantação de braquiária sem saber como sair dela. Eu acelerando e fazendo o carro pular, você me xingando. Depois de um longo silêncio, me falava os nomes das árvores, dos pássaros e contava seus causos. Seus negócios. A gente descendo na fazenda onde meu avô trabalhou, onde se casaram. Nos lugares onde você plantou e colheu. Eu e você, roubando todas as mangas e frutas pelo caminho. Depois ouvindo “Detalhes” dez vezes sentados na carroceria da corrier, olhando a paisagem. Entre uma música e outra, te fazia lembrar o pai maravilhoso que você sempre foi. Te ver chorar com a mão pra fora do carro, sentindo a chuva te tocar, é uma das minhas lembranças favoritas da vida. As vezes faço isso para chegar mais perto de você. E aquele nosso abacaxi com limão e sal na estrada pra finalizar a rota do domingo, sou capaz de sentir o gosto ainda. E o pé de jacarandá? Será mesmo esse o nome? Espero um dia conseguir lembrar de como se chega até ele. Esteja lá nesse dia, promete?

Saudade. 








29 de outubro de 2019

Neto




Neto. Até um mês atrás eu dizia que tinha sete irmãos. Talvez por querer evitar pronunciar o seu nome e por segundos ser levada até a minha infância e depois voltar para o presente com uma saudade interminável outra vez. É tão fácil chegar até você quando fecho os olhos. E é tão bom ver nós dois correndo pelo quintal de casa e depois, cansados, deitados com a mãe fazendo cafuné na nossa cabeça. Nós três no tapete da sala, como tivemos a sorte de sermos filhos de uma mãe tão nova e amorosa, penso.

Me lembro dos nossos banhos com esguicho, da sua risada e seus dentinhos ainda de leite, do seu corte de cabelo torto, de você sendo o sol na apresentação da escola por que era o menino mais alto da sala. Por segundos, sou capaz de vivenciar aquela paz infinita que sentia antes de dormir, sabendo que você dormia na cama ao lado da minha. Foi o que mais senti falta depois que você partiu. Durante anos da minha vida acordei de madrugada com a voz do Vô Orlando gritando o nome do pai. Aquele dia, com certeza, foi o primeiro pior dia da minha vida. Eu tinha oito anos. Consigo me ver sentadinha num banco de concreto, ouvindo as pessoas dizendo pra mim que anjo tinha que ficar no céu e que Deus tinha te levado por que precisava de um menino bom lá em cima ao lado dele. Eu só desejava que você fosse um menino mau, assim não teria me deixado sozinha. E achava que Deus não era legal por ter feito isso comigo.

Acho que só perdoei Deus uns vinte anos depois.

E talvez por lembrar de tudo isso quando pronuncio o seu nome tenha sido o motivo de evitar falar a quantidade de irmãos que eu tenho. Mas são OITO. Somos nove irmãos. E nove é meu número da sorte, desde o momento em que decidi que não me importaria em sentir todo esse turbilhão de sentimento que sinto quando pronuncio o seu nome: “NETO”.

27 de outubro de 2019

Felipe






Felipe. Começamos a conviver juntos quando ele tinha uns dez anos e eu uns vinte e cinco. Por sorte a minha, ele morava na mesma cidadezinha que eu morava com meu pai. Ele foi crescendo, a gente foi se aproximando.

O Pablo e Renan vinham para a casa do pai no final de semana, todos eles se juntavam, era moto e barulheira o dia todo. Queria morrer. Mas na segunda o Felipe era meu de volta. Filme, filipeta, pipoca e sorvete. Era uma delícia ter ele na minha vida. Nunca vou esquecer de quando ele começou a me ajudar a emagrecer: eu corria e ele de bike atrás falando “vai, força, coragem, você consegue”. Depois a gente chegava em casa e pedia lanche. Virou amigo das minhas amigas, meu companheiro para ir no cinema, no teatro, no japonês.

O bom de escrever sobre as pessoas mais importantes da minha vida é lembrar de momentos incríveis que vivemos juntos. Como quando, do nada, de madrugada me dava medo de ficar sozinha e ele vinha pra casa. Ou aquele dia em que ele me pegou chorando no quarto, deitou do meu lado, me abraçou e chorou com minha dor. Ou quando ele me deu a notícia que ia estudar publicidade por que meu amor pela minha profissão o inspirava. Nesse dia, senti um misto de alegria e tristeza.

Por um minuto, enquanto penso no Felipe agora e no homem em que ele se transformou, me bate um puta orgulho. Acredito que meu pai, esteja onde estiver, deva sentir o mesmo. Todo pai e toda mãe gostaria de ter um filho como ele. Dizem que o jeito que um filho trata sua mãe diz muito sobre essa pessoa. Se isso é verdade, eu sou irmã de uma das melhores pessoas do mundo. Porque quando o Felipe fala da mãe dele, a gente até sai do chão de tanto amor.  Felipe é carinhoso, ele olha por dentro das pessoas, sabe o que quer e nunca passou por cima dos outros para realizar os seus sonhos.

Lembro de quando ele juntou dinheiro para comprar a sua primeira câmera fotográfica. Era pura felicidade. Depois quando me mostrou o primeiro ensaio, olhei nos olhos dele e falei “tá bom, mas não tá ótimo, precisa melhorar muito, aliás não tá nem bom”. Depois de um tempo fotografando até as pedras do chão, estudando, trabalhando de graça, certa vez ele me mostrou um álbum de casamento. Eu lembro que chorei no dia. De tanto orgulho.

Semana passada, numa reunião com o maior cliente da agência, foi solicitado um bom fotografo e um dos meus colegas de trabalho falou do meu irmão. Procuraram o nome dele no insta. Todo mundo começou olhar as fotos. Na hora, foi falado “quero ele”. E eu disse “gente, seria ótimo, mas meu irmão se mudou para a Nova Zelândia faz um tempinho e deve demorar pra voltar”. E de repente estava eu lá parecendo um dirigível de tão feliz e orgulhosa. Bom, pra resumir, enquanto eu observava cinco pessoas olhando o insta dele no celular e falando “olha essa foto que coisa linda”, “que trabalho incrível”, “Jô, ele é muito bom”, “meu, que foda essa foto”... eu agradeci baixinho por ser irmã do cara que todos daquela sala admiravam.



23 de outubro de 2019

Carol




Existem mais de 7 bilhões de pessoas no mundo. A Carol é a minha MELHOR amiga. Por sorte, além de melhor amiga, ela é minha irmã. É ela também a pessoa que eu mais briguei e brigo na vida. E a que perdoo mais rápido, entre todas. Mas na maioria das vezes, nem lembramos de perdoar ou pedir desculpas. Por que nunca foi preciso. São raras as pessoas que te conhecem mais do que você mesma. A Carol é essa pessoa na minha vida. Que me conhece tão profundamente, mais tão profundamente, que quando preciso me ouvir por dentro, peço ajuda a ela. Foi a Carol, entre todos nós irmãos, que parou sua vida durante um ano para estar ao lado do meu pai no último ano da sua vida. Há dores que ela sentiu que eu jamais sentirei. E minha gratidão por ela, por maior que seja, sei que nunca será o suficiente.

A Carol é aquele tipo de pessoa que faz a gente rir. Que faz careta para crianças na rua, que tem sempre uma playlist animada no celular, que nas festas sobe no palco e canta com os músicos, que vira palhaça nos churrascos. Ela arruma tempo pra tudo. Pra ajudar a nossa mãe, para ajudar nossos irmãos, uma amigo e até mesmo algum desconhecido. Quem precisou da Carol um dia, nunca ficou na mão. Talvez por isso ela tenha se tornado uma Advogada. E se caso ela te falar que não vai dar para ir naquele evento tal, pode acreditar: ela não quer ir. E não vai arrumar desculpas pra te dizer isso. A maior virtude da Carol também é o seu maior defeito: a SINCERIDADE.


Eu tinha sete anos quando ela nasceu. Como eu poderia imaginar que aquela mini pessoinha no meu colo na maternidade, carequinha e brava, iria se tornar essa mulher tão incrível? Forte, destemida, inteligente e - em raríssimos momentos - doce. A Carol é aquele tipo de pessoa que fala “eu te amo” umas duas vezes no ano no máximo pra você, mas que demonstra esse sentimento de várias formas possíveis. Basta saber enxergar. Faz mais de trinta anos que venho aprendendo. Uma hora chego lá.


Josane H.