24 de abril de 2023

Para o seu próximo amor

(pra ler escutanto a música, só clicar no play)


Você viu?
Nada adiantou escudos pesados.
Doeu do mesmo jeito, não foi?
Eu lhe disse uma vez
que escudos não protegem corações.
Você me ensinou a amar em paz
pela primeira vez na minha vida,
acho tão bonito.
Mas de tanto me esconder,
me perdi de mim.
De tanto nadar no raso,
desaprendi a mergulhar.
E o seu medo de amar
passou a ser meu também.
E você viu?
Não adiantou escudos pesados.
A hora de entrar no mar
por fim, passou.

 

Josane H.


 

 


18 de agosto de 2022

Mergulhos

 

Sabe o que é? Eu me apaixonei. Desculpa. Acho que não era isso que você queria. Eu nunca me dei bem nesses tratos sentimentais. Então, deve existir outro alguém que sirva pra viver isso com você e nadar nesse raso. Por algumas vezes - quero que saiba - eu saí dessa piscina rasa e fui correndo lá mergulhar no marzão (acredita que existe essa palavra? Significa grande extensão de água, mar grande, ponto do oceano de onde não se avista terra, alto-mar). Sabe as perguntas que eu faço? “Você ainda tá no tinder?”, “você tá falando com os seus crushs?”... pois é... nunca foram pra criar climão não rsrsrsr... é por que eu preciso ouvir você dizer que sim, e assim, eu voltar pro raso, onde combinamos de ficar. De onde você nenhuma vez saiu. E o raso é bom... com certeza o raso é bom... ele é confortável, dá até pra pegar uma cor, não tem ondas, é sempre quentinho. Meio corpo pra dentro, meio pra fora. Nunca é completo, mas tá tudo bem. E ninguém precisa ter medo do raso, até por que não há riscos. Mas, olha, eu preciso te falar uma coisa: eu gosto do mar. Eu gosto muito do mar. E o mar não é isso. O mar nunca foi e nunca será uma piscina rasa de clube, onde a gente nada com boia no braço, mesmo dando pé, com medo de se afogar. O mar exige uma coragem foda do caralho. E só quem tem coragem, nada nele. No mar a gente dá ponta, pula de bombinha, surfa, navega. O mar é imensidão, é onde nosso coração mergulha profundamente, é onde se chega a algum lugar pra ancorar o barco e conhecer ilhas incríveis e depois navegar de novo, infinitamente. O mar é onde nossa melhor viagem acontece, é onde o sol nasce e se põe dentro da gente. E eu gosto de sentir tudo isso. E quando estou com você, eu sinto vontade de entrar no mar. Fechei os olhos pra terminar de escrever esse texto e me visualizei entrando nele e, quando olho pra trás, você continua lá parada, em pé em sua piscina rasa, sem saber o que fazer. Então eu falo baixinho “vem”.   

12 de julho de 2022

Cidades

(apera ai o play pra ouvir junto enquanto lê)


Eu pensei em te dar um livro da Matilde Campilho. Ela me diria pra tentar não fazer de ninguém uma cidade outra vez. Ela diz muito isso pra mim. Mas nunca dei razão a ela. Ontem mesmo eu observava feliz a construção da igrejinha com praça na frente. Dizem que é assim que as cidades começam. 

Hoje pedi ao engenheiro responsável que pare as obras. Todos foram embora sem entender muito, mas contentes com o acerto considerável. Achei melhor.

Enquanto caminho entre os sacos de areia, pedras e madeiras espalhados, penso nas três cidades que construí ao longo da vida. Três imensas cidades, mas todas elas com um ar místico de pequenos vilarejos, únicos e um tanto impenetráveis, embora, ao mesmo tempo, extremamente apaixonantes. Morei em todas. Lindas, com suas particularidades inesquecíveis. Sinto orgulho delas. Das casas com árvores frutíferas na frente, das ruelas navegantes cobertas por estrelas – fosse dia ou noite – lá estavam elas iluminando os sonhos e os trajetos. Das flores de todos os tipos, tão coloridas, intensas, cheirando a cor lilás. Sente? Ao fechar os olhos sou capaz de tocar com a palma da mão as ondas que os voos das borboletas causavam nos mares. Olho para os balões suspensos no ar, sobre as montanhas, e me lembro que eu nunca me cansava de voar entre eles. É entre eles que os olhos delas me olhavam.

Eu não sei quando a quarta cidade será construída novamente. Talvez Bukowski esteja certo e meu coração ficou pequeno demais para comportar mais uma cidade dentro dele. Nos últimos dois meses estive atravessando de bicileta as grandes cidades que construí, só pra te ver dançar nos meus braços por horas. “E isso diz muito sobre sua caixa torácica”, diria Matilde.  

Penso que qualquer terapeuta pediria para eu contratar um serviço de retroescavadeira.


Josane H.
12 de julho de 2022

24 de maio de 2022

Vem

Vem. É assim que deveria ser sempre, em tudo na vida. Esse “vem” desprovido. Gosto dessa leveza intensa que provocamos uma na outra. Amo essa bagunça que causamos. Esse vou, não vou, mas não perco nenhum minuto. Vem. Fico louca nesse sem cansar imensurável, sem pausas ou respiros, descalças pela casa, descobertas e absurdamente quentes. Com nossas taças cheias, corações completos e as risadas nos momentos mais improváveis. É assim. Vem. Só isso.     

Para M.

Josane H.

2 de maio de 2022

Pouquinho


- Não volta a ser aquela Josane de 1999 não.

- Só um pouquinho, vai.

- E desde quando essa palavra existe no seu vocabulário? Essa Josane de 2022 é o que você precisa ser, continuar a ser. Você levou tanto tempo pra se tornar ela.

- Eu também gosto dela, mas só por algumas semanas, preciso ser a outra.

- Que medo.

- Já já essa Josane de hoje volta, prometo.

 


1 de maio de 2022

Domingos

Domingo, 01 de maio, 21h32.

Minha sacada virou meu lugar favorito nas noites de domingo. Abril é o mês que mais gosto. Não é quente, nem frio e o céu é lindo a qualquer hora do dia, principalmente antes do sol se pôr. Texto brega esse. Não ligo. O que importa é que acertei na compra do notebook que acende o teclado no escuro. A parte boa de escrever é que você tem que organizar os pensamentos pra fazer isso acontecer. E hoje eles estão tão inquietos. O barulho que eles fazem na minha cabeça é mais alto que o show do Kiss que acontece aqui perto.

Acendi um cigarro (sim, vou parar, não agora), coloquei mais vinho na taça.

Tô aqui lembrando o que aquela moça que paquero me disse quinta-feira “você é intensa”. Vou mandar uma mensagem pra ela perguntando como passou o dia. É aniversário dela.

Ela perguntou o que estou ouvindo.

O que será que a vizinha da frente pensa enquanto fuma seu cigarro e me olha

Compartilhei com a moça a música que estou ouvindo: The Pretenders Don't get me wrong.

Bom, mas ok. “Você é intensa”. O que escrever sobre isso? Não faço terapia tem uns 8 anos. Se Hilda e Clarice me visitassem novamente, diriam que intensidade é minha maior qualidade (“substitua por virtude” essa palavra aí, diria Hilda – Clarice me defenderia dizendo “deixa a menina escrever do jeito que ela quiser essa merda Hilda”). Xingaria as duas com uns bons palavrões. Melhor que não viessem hoje. Só tenho uma garrafa de vinho, agora na metade já.

Mas voltando. Acho que intensidade é meu combustível. Até penso que gostaria de ser meio termo. Ser a pontinha de pé que encosta lentamente na água pra sentir a temperatura antes de entrar. Mas não sou assim. Quando vejo, já pulei com roupa e tudo. Mergulho sem saber se está fria ou não, se a correnteza está forte ou leve, se tem tubarão ou peixinhos coloridos, se é fundo ou raso. Não se enganem. Nunca é fácil ser intenso. É perigoso. Nesses 42 anos de saltos ornamentais desajuizados, já me peguei muitas vezes mergulhando em mares revoltos, em lagoas escuras, sem saber como sair. Acreditem, ninguém te salva nenhuma vez, só você mesmo consegue. Mas ó... por conta da minha intensidade, também já mergulhei fundo em águas claras quentinhas, vi de perto cidades de corais incríveis que só quem mergulha sem medo consegue enxergar, entrei em cachoeiras que lavaram minha alma por dentro, flutuei gostoso em águas tão límpidas quanto o céu estrelado de abril. Do mais bonito ao mais aterrorizante mergulho, acho que pessoas meio termo correm o risco de ficar de colete dentro da lancha. É mais seguro, mas me parece um tanto chato.

Domingo. 01 de maio. 23h17.

A vizinha foi dormir.

A moça respondeu “você é uma das minhas pessoas preferidas, as que vivem cada momento com intensidade”.

Clarice e Hilda riram. Sim, elas vieram. Tomara que não demorem muito pra ir que tô com sono. Clarice gritou da cozinha “a gente veio pra ficar, Jô”. Era só o que me faltava, essas duas de volta. Senhor, me ajuda. “Trouxemos mais vinho”, disse Hilda soltando aquela risada de senhora fumante que a gente nunca sabe se ela tá rindo, engasgada ou sofrendo um infarto.

É duro.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

26 de abril de 2022

A vida é curta


Só as pessoas a quem você entregou a chave do seu coração são capazes de te magoar profundamente. Com o tempo você entende que deixá-las entrar na sua vida é uma escolha, mas deixar que permaneçam também é. Se despeça, coloque a vassoura atrás da porta, acenda um incenso, faça uma reza forte, coloca pra tocar aquela sua música favorita e – o mais importante – troque a fechadura o quanto antes. O seu coração pode ser grande, mas a vida é curta. Aproveite com quem mereça.

Josane H.
26 de abril de 2022