Você
viu? Nada
adiantou escudos pesados. Doeu
do mesmo jeito, não foi? Eu lhe
disse uma vez que escudos
não protegem corações. Você
me ensinou a amar em paz pela primeira vez na minha vida, acho tão
bonito. Mas de
tanto me esconder, me perdi
de mim. De
tanto nadar no raso, desaprendi
a mergulhar. E o
seu medo de amar passou
a ser meu também. E você
viu? Não
adiantou escudos pesados. A hora
de entrar no mar por fim,
passou.
Sabe o que
é? Eu me apaixonei. Desculpa. Acho que não era isso que você queria. Eu nunca
me dei bem nesses tratos sentimentais. Então, deve existir outro alguém que
sirva pra viver isso com você e nadar nesse raso. Por algumas vezes - quero que
saiba - eu saí dessa piscina rasa e fui correndo lá mergulhar no marzão
(acredita que existe essa palavra? Significa grande extensão de água, mar
grande, ponto do oceano de onde não se avista terra, alto-mar). Sabe as
perguntas que eu faço? “Você ainda tá no tinder?”, “você tá falando com os seus
crushs?”... pois é... nunca foram pra criar climão não rsrsrsr... é por que eu
preciso ouvir você dizer que sim, e assim, eu voltar pro raso, onde combinamos
de ficar. De onde você nenhuma vez saiu. E o raso é bom... com certeza o raso é
bom... ele é confortável, dá até pra pegar uma cor, não tem ondas, é sempre
quentinho. Meio corpo pra dentro, meio pra fora. Nunca é completo, mas tá tudo
bem. E ninguém precisa ter medo do raso, até por que não há riscos. Mas, olha,
eu preciso te falar uma coisa: eu gosto do mar. Eu gosto muito do mar. E o mar não
é isso. O mar nunca foi e nunca será uma piscina rasa de clube, onde a gente
nada com boia no braço, mesmo dando pé, com medo de se afogar. O mar exige uma coragem
foda do caralho. E só quem tem coragem, nada nele. No mar a gente dá ponta, pula
de bombinha, surfa, navega. O mar é imensidão, é onde nosso coração mergulha
profundamente, é onde se chega a algum lugar pra ancorar o barco e conhecer ilhas
incríveis e depois navegar de novo, infinitamente. O mar é onde nossa melhor
viagem acontece, é onde o sol nasce e se põe dentro da gente. E eu gosto de
sentir tudo isso. E quando estou com você, eu sinto vontade de entrar no mar.
Fechei os olhos pra terminar de escrever esse texto e me visualizei entrando
nele e, quando olho pra trás, você continua lá parada, em pé em sua piscina
rasa, sem saber o que fazer. Então eu falo baixinho “vem”.
Eu pensei em te dar um livro da
Matilde Campilho. Ela me diria pra tentar não fazer de ninguém uma cidade outra
vez. Ela diz muito isso pra mim. Mas nunca dei razão a ela. Ontem mesmo eu
observava feliz a construção da igrejinha com praça na frente. Dizem que é
assim que as cidades começam.
Hoje pedi ao engenheiro responsável que pare as obras. Todos foram embora sem
entender muito, mas contentes com o acerto considerável. Achei melhor.
Enquanto caminho entre os sacos de areia,
pedras e madeiras espalhados, penso nas três cidades que construí ao longo da vida.
Três imensas cidades, mas todas elas com um ar místico de pequenos vilarejos, únicos
e um tanto impenetráveis, embora, ao mesmo tempo, extremamente apaixonantes. Morei
em todas. Lindas, com suas particularidades inesquecíveis. Sinto orgulho delas.
Das casas com árvores frutíferas na frente, das ruelas navegantes cobertas por
estrelas – fosse dia ou noite – lá estavam elas iluminando os sonhos e os trajetos.
Das flores de todos os tipos, tão coloridas, intensas, cheirando a cor lilás. Sente?
Ao fechar os olhos sou capaz de tocar com a palma da mão as ondas que os voos
das borboletas causavam nos mares. Olho para os balões suspensos no ar, sobre
as montanhas, e me lembro que eu nunca me cansava de voar entre eles. É entre
eles que os olhos delas me olhavam.
Eu não sei quando a quarta cidade
será construída novamente. Talvez Bukowski esteja certo e meu coração ficou
pequeno demais para comportar mais uma cidade dentro dele. Nos últimos dois meses estive atravessando de bicileta as grandes cidades que construí, só pra te ver dançar nos
meus braços por horas. “E isso diz muito sobre sua caixa torácica”, diria
Matilde.
Penso que qualquer terapeuta pediria para eu contratar um
serviço de retroescavadeira.
Vem. É assim
que deveria ser sempre, em tudo na vida. Esse “vem” desprovido. Gosto dessa
leveza intensa que provocamos uma na outra. Amo essa bagunça que causamos. Esse
vou, não vou, mas não perco nenhum minuto. Vem. Fico louca nesse sem cansar
imensurável, sem pausas ou respiros, descalças pela casa, descobertas e absurdamente
quentes. Com nossas taças cheias, corações completos e as risadas nos momentos mais
improváveis. É assim. Vem. Só isso.
- E desde
quando essa palavra existe no seu vocabulário? Essa Josane de 2022 é o que você
precisa ser, continuar a ser. Você levou tanto tempo pra se tornar ela.
- Eu também
gosto dela, mas só por algumas semanas, preciso ser a outra.
Minha sacada
virou meu lugar favorito nas noites de domingo. Abril é o mês que mais gosto.
Não é quente, nem frio e o céu é lindo a qualquer hora do dia, principalmente
antes do sol se pôr. Texto brega esse. Não ligo. O que importa é que acertei na
compra do notebook que acende o teclado no escuro. A parte boa de escrever é
que você tem que organizar os pensamentos pra fazer isso acontecer. E hoje eles
estão tão inquietos. O barulho que eles fazem na minha cabeça é mais alto que o
show do Kiss que acontece aqui perto.
Acendi um
cigarro (sim, vou parar, não agora), coloquei mais vinho na taça.
Tô aqui
lembrando o que aquela moça que paquero me disse quinta-feira “você é intensa”.
Vou mandar uma mensagem pra ela perguntando como passou o dia. É aniversário
dela.
Ela
perguntou o que estou ouvindo.
O que será
que a vizinha da frente pensa enquanto fuma seu cigarro e me olha
Compartilhei
com a moça a música que estou ouvindo: The Pretenders Don't get me wrong.
Bom, mas ok.
“Você é intensa”. O que escrever sobre isso? Não faço terapia tem uns 8 anos. Se
Hilda e Clarice me visitassem novamente, diriam que intensidade é minha maior
qualidade (“substitua por virtude” essa palavra aí, diria Hilda – Clarice me
defenderia dizendo “deixa a menina escrever do jeito que ela quiser essa merda
Hilda”). Xingaria as duas com uns bons palavrões. Melhor que não viessem hoje.
Só tenho uma garrafa de vinho, agora na metade já.
Mas
voltando. Acho que intensidade é meu combustível. Até penso que gostaria de ser
meio termo. Ser a pontinha de pé que encosta lentamente na água pra sentir a
temperatura antes de entrar. Mas não sou assim. Quando vejo, já pulei com roupa
e tudo. Mergulho sem saber se está fria ou não, se a correnteza está forte ou
leve, se tem tubarão ou peixinhos coloridos, se é fundo ou raso. Não se
enganem. Nunca é fácil ser intenso. É perigoso. Nesses 42 anos de saltos ornamentais
desajuizados, já me peguei muitas vezes mergulhando em mares revoltos, em lagoas
escuras, sem saber como sair. Acreditem, ninguém te salva nenhuma vez, só você
mesmo consegue. Mas ó... por conta da minha intensidade, também já mergulhei fundo
em águas claras quentinhas, vi de perto cidades de corais incríveis que só quem
mergulha sem medo consegue enxergar, entrei em cachoeiras que lavaram minha
alma por dentro, flutuei gostoso em águas tão límpidas quanto o céu estrelado
de abril. Do mais bonito ao mais aterrorizante mergulho, acho que pessoas meio
termo correm o risco de ficar de colete dentro da lancha. É mais seguro, mas me
parece um tanto chato.
Domingo. 01
de maio. 23h17.
A vizinha
foi dormir.
A moça
respondeu “você é uma das minhas pessoas preferidas, as que vivem cada momento
com intensidade”.
Clarice e
Hilda riram. Sim, elas vieram. Tomara que não demorem muito pra ir que tô com
sono. Clarice gritou da cozinha “a gente veio pra ficar, Jô”. Era só o que
me faltava, essas duas de volta. Senhor, me ajuda. “Trouxemos
mais vinho”, disse Hilda soltando aquela risada de senhora fumante que a gente
nunca sabe se ela tá rindo, engasgada ou sofrendo um infarto.
Só as pessoas a quem você entregou a chave do seu coração são capazes de te magoar profundamente. Com o tempo você entende que deixá-las entrar na sua vida é uma escolha, mas deixar que permaneçam também é. Se despeça, coloque a vassoura atrás da porta, acenda um incenso, faça uma reza forte, coloca pra tocar aquela sua música favorita e – o mais importante – troque a fechadura o quanto antes. O seu coração pode ser grande, mas a vida é curta. Aproveite com quem mereça.